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Pessoa usando smartphone em um ambiente com outras pessoas ao fundo.

Artigo 06

Desligar a tela não encerra a história

Um clique pode durar muito mais do que alguns segundos

Keila Cristina BomfimPsicóloga Clínica - CRP 08/20803

3 min de leitura

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A hiperconectividade transformou profundamente a forma como as pessoas se relacionam. A internet não criou a crueldade, mas ampliou sua velocidade, alcance e permanência. Uma publicação pode ser compartilhada inúmeras vezes e continuar produzindo consequências muito depois de o conteúdo original desaparecer.

O impacto dessas situações raramente permanece restrito ao ambiente virtual. Pode alcançar a escola, o trabalho, a família e outros espaços de convivência. Assim, desconectar-se da plataforma não significa conseguir se desconectar do acontecimento. A agressão começou on-line, mas não permanece lá.

Quando a agressão ultrapassa a tela

A violência digital não se restringe ao cyberbullying. Diferentes formas de exposição, humilhação, perseguição ou ataques à reputação podem causar sofrimento significativo em qualquer idade. Quando se perde o controle sobre quem teve acesso ao conteúdo, quem ainda o verá ou quando ele voltará a circular, a experiência pode se tornar particularmente angustiante.

Os efeitos podem permanecer

A expectativa de novos compartilhamentos, o receio de reencontrar quem viu o conteúdo, a sensação de estar sendo observado ou julgado e a dificuldade de prever quando tudo realmente terminará podem favorecer alterações emocionais, dificuldades de sono e concentração, ruminação, hipervigilância e outras repercussões. Esses efeitos não desaparecem rapidamente e, em alguns casos, a experiência pode inclusive produzir respostas relacionadas ao trauma.

A audiência também faz parte da história

Uma agressão digital raramente envolve apenas quem publicou e quem foi atingido. Curtidas, comentários, compartilhamentos e novas postagens podem ampliar sua circulação. Isso não significa que todos tenham a mesma responsabilidade, mas evidencia que pequenas ações individuais podem produzir grandes consequências quando somadas. Ninguém fez mil comentários sozinho. Mas alguém recebeu os mil.

Prevenção e intervenção: O que é possível fazer?

Prevenir a violência digital exige ampliar o olhar sobre o fenômeno. Além de proteger quem sofre e responsabilizar quem agride, é preciso ensinar o grupo a não sustentar a agressão.

  • Antes de reagir, comentar ou compartilhar. Pergunte-se: “Estou ajudando ou ampliando a exposição?” “Se mais pessoas fizerem o que estou prestes a fazer, quais serão as consequências para quem está no centro da situação?”
  • Se você está sendo exposto. Evite ações impulsivas, preserve conteúdos necessários, utilize ferramentas de bloqueio e denúncia e busque ajuda. Você não precisa acompanhar pessoalmente tudo o que está sendo dito. Se necessário, escolha uma pessoa de confiança para filtrar o conteúdo que chega até você.
  • Se você está próximo de alguém nessa situação. Apoiar não significa assumir o controle. Pressionar para que a pessoa responda, minimizar o ocorrido ou mostrar cada nova postagem podem aumentar ainda mais o sofrimento. Escute antes de definir ações e respeite as escolhas da pessoa, mesmo que você não concorde. Cuide para que seu apoio não se torne mais um fator estressante para quem já está sofrendo.
  • Se você presencia ou participa. Não compartilhe, não aumente a audiência, denuncie, ofereça apoio ou procure ajuda se necessário. Atente-se para que, ao tentar defender alguém, você não produza uma nova onda de hostilidade. O grupo pode ampliar uma agressão, mas também pode ajudar a interrompê-la.

Mensagem final

Nem sempre é possível impedir que uma violência comece, mas é possível decidir não contribuir para que ela continue. A hiperconectividade ampliou a capacidade de participação na vida uns dos outros. Essa mesma capacidade pode ser usada para ampliar uma agressão ou para acolher e interrompê-la. Ninguém é responsável por tudo o que acontece no ambiente digital, mas cada pessoa é responsável pelas escolhas que faz dentro dele.

Referências

  • DELL’AGLIO, Débora Dalbosco; KOLLER, Sílvia Helena (org.). Questionário da Juventude Brasileira: versão II. Porto Alegre: [s.n.], [s.d.].
  • SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
  • SILVA, Rafael Lopes Sales e. Juventude e desenvolvimento: fatores de risco e proteção de adolescentes do município de Campos do Jordão – SP. 2016. Dissertação (Mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Regional) – Universidade de Taubaté, Taubaté, 2016.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. #Menos telas #Mais saúde: atualização 2024. Rio de Janeiro: SBP, 2024. Disponível em: documento da Sociedade Brasileira de Pediatria. Acesso em: 16 ago. 2026.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Saúde mental de adolescentes. Genebra: OMS, [s.d.].

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