
Artigo 06
Desligar a tela não encerra a história
Um clique pode durar muito mais do que alguns segundos
Keila Cristina BomfimPsicóloga Clínica – CRP 08/20803
16 min de leitura
Resumo
A hiperconectividade transformou a forma como as pessoas constroem vínculos e experienciam aceitação, rejeição e pertencimento. Nesse contexto, o cyberbullying e outras formas de violência digital são potencializados pelo alcance, velocidade de disseminação e permanência dos conteúdos nas redes. Este capítulo discute suas repercussões psicossociais em adolescentes e adultos, articulando contribuições da neurociência, da psicologia do desenvolvimento e da psicologia social. São abordados fenômenos como ameaça social, influência dos pares, ruminação, hipervigilância, desinibição on-line e desengajamento moral. Destaca-se o papel da audiência e da responsabilidade coletiva na manutenção ou interrupção das agressões, considerando diferentes níveis de responsabilidade. Por fim, são apresentadas orientações para prevenção e intervenção, contemplando a proteção de quem sofre, a responsabilização de quem agride e a participação responsável nas interações digitais. Os efeitos da violência podem ultrapassar a tela e permanecer mesmo após o término da exposição on-line.
Introdução
Estar conectado atualmente significa mais do que estar diante de uma tela. O ambiente digital faz parte do espaço social em que vivemos, onde se constroem relações, compartilhamos experiências e buscamos pertencimento, podendo encontrar aprovação ou rejeição.
A crueldade, a rejeição ou a exposição social existem muito antes da Internet, mas ela mudou a escala em que determinadas experiências podem acontecer. Algo que antes ficaria restrito a um grupo de pessoas agora pode ser compartilhado, reinterpretado e julgado por centenas, milhares ou até milhões de pessoas, alcançando a escola, o trabalho, a família, os relacionamentos e outros espaços da vida cotidiana.
Por isso, apenas se desconectar não significa conseguir não ter mais contato com o acontecimento.
Este texto abordará o cyberbullying e outras formas de exposição e violência no ambiente digital, buscando compreender o que acontece com o comportamento humano e com quem se torna alvo de toda essa exposição, agressão e julgamento, escalonados pela hiperconectividade.
Metodologia
Trata-se de uma revisão teórico-narrativa, fundamentada em estudos sobre cyberbullying, violência digital, adolescência, saúde mental e comportamento no ambiente digital, além de documentos institucionais e legislação pertinente. A discussão integra contribuições da neurociência, da psicologia do desenvolvimento e da psicologia social.
Cyberbullying: quando a agressão ganha outra escala
O cyberbullying é uma forma de violência praticada por meios digitais, cuja definição geralmente considera elementos como intencionalidade, repetição e desequilíbrio de poder (Zych, Ortega-Ruiz e Marín-López, 2016).
No ambiente virtual, uma única imagem, vídeo, montagem ou comentário pode aparecer e reaparecer inúmeras vezes através dos compartilhamentos, reposts, reacts etc. Assim, quem iniciou uma agressão ou exposição não precisa necessariamente fazer isso de novo para que a experiência continue se repetindo para quem está sendo exposto. A própria rede faz o papel de manter o conteúdo circulando, com a perda do controle sobre quem teve acesso a ele, onde foi compartilhado, se foi armazenado, quando e quantas vezes vai reaparecer.
No Brasil, a Lei nº 14.811 incluiu o cyberbullying no Código Penal em 2024.
Mas nem toda violência digital é cyberbullying. Assédio on-line, perseguição, exposição vexatória, ataques à reputação, humilhação pública e ondas massivas de hostilidade também podem produzir sofrimento e consequências consideráveis sem necessariamente preencher todos os critérios utilizados para defini-lo. Essa diferenciação amplia nosso olhar para qualquer pessoa que passe por situações assim, não importa a idade.
Não há mais apenas um responsável
Uma agressão digital raramente envolve apenas quem publicou e quem foi atingido. Outras pessoas entram rapidamente na dinâmica, comentando, compartilhando e transformando o ocorrido em novo conteúdo, propagando a situação para pessoas que não tinham relação alguma com aquilo.
Essas participações não são equivalentes em intenção, responsabilidade e impacto, mas ajudam a compreender como uma agressão pode alcançar uma dimensão muito maior do que aquela produzida por quem a iniciou.
Identificar e responsabilizar “quem começou” é necessário, mas já não é suficiente. Para compreender como e por que tal exposição ganhou tamanha força, é preciso perguntar: quem compartilhou? Quem incentivou? Quem expôs o assunto para novas audiências? E quem tinha condições de contribuir para que tudo isso terminasse?
Quando a exposição alcança esse superdimensionamento, suas consequências ultrapassam o ambiente em que começaram. O assunto chega à escola, ao trabalho, à família, aos amigos e aos relacionamentos. A pessoa é reconhecida, questionada e confrontada com o que aconteceu, mesmo que tenha optado por não acompanhar mais o mundo virtual.
A agressão começou on-line, mas não permanece lá.
Por que uma agressão virtual pode afetar tanto?
As pessoas não são apenas indivíduos, são seres sociais que precisam de pertencimento, vínculos, aceitação, reputação e reconhecimento. Por isso, não são só as ameaças físicas que produzem respostas emocionais significativas.
O conceito de ameaça social é encontrado na literatura, elucidando situações em que há a percepção de ameaça ao status social, às conexões, à identidade social ou à segurança interpessoal (Sequeira et al., 2025). No contexto de uma exposição digital, essa ameaça pode assumir uma característica ainda mais difícil: a incerteza quanto a sua dimensão e seu término.
“Quem viu?”, “Quem ainda vai ver?”, “O que estão falando de mim?”, “Será que amanhã isso vai aparecer de novo?”
Mesmo que uma publicação tenha sido apagada e os comentários tenham diminuído, uma notificação ainda pode provocar apreensão. Encontrar pessoas que viram o conteúdo pode gerar constrangimento. A evitação em ir a alguns lugares e o monitoramento excessivo das redes podem se tornar rotina. Aqui a pessoa está em hipervigilância, mesmo depois que o pico da exposição tenha passado.
A ruminação faz com que a pessoa retorne de novo e de novo ao ocorrido: o que foi dito, por que aquilo aconteceu, quem viu e quais serão as consequências, fenômeno associado ao sofrimento psicológico (Aldao, Nolen-Hoeksema e Schweizer, 2010).
Podem surgir problemas de sono, dificuldades de concentração, irritabilidade e desregulação emocional. Estudos encontram associações do cyberbullying com depressão, ansiedade e sofrimento emocional entre adolescentes (Bottino et al., 2015) e do bullying no ambiente de trabalho com problemas de saúde mental em adultos (Laschinger e Nosko, 2015; Verkuil, Atasayi e Molendijk, 2015).
Nem toda experiência de bullying, cyberbullying ou exposição digital constitui por si só um trauma no sentido clínico.
Por isso aqui cabe mencionar uma expressão frequentemente utilizada no contexto clínico: “O trauma não é apenas o que aconteceu, mas o que ficou no sistema nervoso”. Não se trata de uma definição neurobiológica literal de trauma, mas de lembrar que o fim de um evento não implica o fim das suas repercussões.
Orientações como “pare de ler os comentários”, “não olhe mais isso”, “desligue o celular” podem reduzir a exposição, mas não são suficientes. Os desdobramentos que atingiram vários âmbitos da vida da pessoa já ultrapassaram a tela e podem continuar reverberando por muito mais tempo.
Adolescência: quando o pertencimento tem um peso ainda maior
A adolescência é um período de intensas transformações biológicas, psicológicas e sociais. O desenvolvimento do cérebro social coloca os pares num lugar importante, aumentando a suscetibilidade à influência deles e à rejeição social (Andrews, Ahmed e Blakemore, 2021). A preocupação com estar sendo avaliado também toma um espaço grande (Somerville, 2013).
Contardo Calligaris e Françoise Dolto ampliam esse olhar ao considerar também o lugar social e relacional do adolescente, trazendo questões de reconhecimento, identidade, autonomia, pertencimento e da passagem entre a infância e o mundo adulto.
Aprovação, rejeição, reconhecimento e pertencimento ganham novos parâmetros no ambiente digital, com grupos conectados e audiências muito maiores.
“Todo mundo viu.” “Estão rindo de mim.” “Como vou encarar as pessoas na escola?” “O que vão falar quando me encontrarem?”
A exposição atinge tanto a imagem que o adolescente apresenta nas redes, quanto sua percepção de pertencimento, reputação e posição nos grupos.
E essa relevância dos pares traz luz a outros pontos: “Todo mundo estava fazendo”, “Eu só ri”, “Mandaram no grupo e eu compartilhei”, “Se eu defendesse a pessoa, poderiam começar a fazer isso comigo.”
Isso não retira do adolescente a responsabilidade por suas escolhas, mas a influência dos pares também pode ocorrer por comportamentos cooperativos, justos e pró-sociais (Molleman, Ciranka e Van Den Bos, 2022). Assim, o grupo pode tanto amplificar uma agressão como ajudar a interrompê-la.
Um adolescente que diga “não compartilhe”, “já deu, já passou do limite”, ou apenas se recuse a participar, pode contribuir para modificar a norma daquele grupo.
Aqui está um excelente ponto para prevenção: Não só ensinar quem sofre a se proteger, mas também ensinar o grupo a não sustentar a agressão, fazendo dele uma parte da proteção, não do risco.
E sobre quem pratica?
Ao se pensar em cyberbullying ou violência digital, é comum imaginar alguém que deliberadamente quer humilhar, perseguir, ameaçar ou causar sofrimento. Essas situações existem, mas nem todas as pessoas que participam de uma agressão começaram com a intenção consciente de machucar alguém.
Suler (2004) descreveu como “desinibição on-line” características que podem fazer com que algumas pessoas se expressem de maneira diferente ou mais intensa do que fariam presencialmente. A comunicação digital pode reduzir alguns dos “freios” presentes nas interações cara a cara.
Basta comparar o ato de escrever palavras ofensivas, clicar em “enviar” e continuar rolando a tela, com dizer a mesma coisa pessoalmente a alguém, vendo sua expressão e tendo que permanecer naquele ambiente.
Outro ponto é o desengajamento moral, que acontece quando uma pessoa justifica para si mesma um comportamento prejudicial, minimizando suas consequências ou deslocando a responsabilidade pelo que fez (Killer et al., 2019; Liu et al., 2023).
Esse fenômeno pode ser percebido em frases como: “Ela mereceu”, “Estou apenas dizendo a verdade”, “Eu só compartilhei”, “Todo mundo estava falando”, “Não estou atacando, estou apenas expondo”.
É importante que haja consequências quando alguém faz algo condenável, mas isso não gera uma liberação para práticas de humilhação, perseguição ou exposição pública. Responsabilizar alguém por uma conduta inadequada não deveria significar desumanizar essa pessoa.
O olhar precisa ir além de “quem é o agressor?”, pois pela própria dinâmica das redes dificilmente há apenas um agressor.
Qual a diferença entre curiosidade e violência?
Circular informações sobre terceiros pode desempenhar funções relacionadas a vínculo, reputação, cooperação e compreensão das normas sociais (Giardini e Wittek, 2019). O chamado gossip não se resume a maledicência, pois falar sobre outras pessoas faz parte da vida social.
O problema está em não se perceber o que essa curiosidade pode estar produzindo.
“Só mostrar” um vídeo, comentar uma história ou compartilhar uma indignação pode partir de uma crença sincera que estamos ajudando. Individualmente, uma ação pode parecer pequena, mas coletivamente essas ações podem gerar uma exposição muito maior.
Por isso, à pergunta “Quem é o agressor?”, precisamos acrescentar: “Qual é a minha participação nisso tudo que está acontecendo?”
Eu comecei ou amplifiquei? Acrescentei uma nova audiência? Incentivei outras pessoas? Transformei a situação em entretenimento? Eu poderia ter colocado um limite?
A violência coletiva não depende de que todos tenham a mesma intenção. Há quem faça por hostilidade, indignação, curiosidade, apenas para participar da conversa, porque acredita estar defendendo alguém ou simplesmente porque não pensou nas consequências de um compartilhamento.
Essas condutas não têm o mesmo peso, nem a mesma responsabilidade, mas mesmo quem não se percebe como agressor pode contribuir para ampliar uma agressão.
A audiência também faz parte da história
Quando uma agressão acontece “em público”, a relação não se restringe a quem agride e quem foi agredido. No ambiente digital, a audiência, que pode ser numerosa, também pode participar.
Estudos mostram que os observadores podem não se manifestar, apoiar quem sofre, reforçar quem agride ou participar diretamente da agressão (Polanco-Levicán e Salvo-Garrido, 2021).
Algumas respostas da audiência podem funcionar como reforço social, como rir do ocorrido, demonstrar aprovação, incentivar quem agride ou compartilhar a situação (Jeyagobi et al., 2022).
Assim, talvez a palavra “espectador” não seja suficiente. Ao ver uma publicação, ele pode seguir para o próximo post, mas também pode curtir, comentar, encaminhar, produzir um novo conteúdo ou, ao contrário, denunciar, oferecer apoio ou procurar ajuda. Suas ações passam a fazer parte do acontecimento.
Curtir ou compartilhar uma publicação, fazer um comentário ofensivo e ameaçar alguém são comportamentos diferentes, com níveis de responsabilidade diferentes, por isso, não é correto equiparar todos que reagiram a um conteúdo com o “agressor”.
A audiência geralmente não inicia uma agressão, mas suas respostas são preponderantes na definição do que acontece depois.
Quando muitas pessoas presenciam determinada situação, a percepção de responsabilidade individual pode diminuir (Brody e Vangelisti, 2016; Obermaier, Fawzi e Koch, 2016). No ambiente digital, isso pode ser racionalizado através de pensamentos como:
“Já estava viralizado, todo mundo estava compartilhando.”
“Não fui eu quem publicou.”
“Foi só uma curtida.”
“Meu comentário não vai fazer diferença, é só mais um.”
Individualmente, cada participação parece pequena. Mas quem está no centro da exposição experimenta o resultado acumulado dessas pequenas participações.
Ninguém fez mil comentários sozinho. Mas alguém recebeu os mil
Por isso, não basta perguntar quem iniciou uma agressão, mas também quem continuou e ampliou a exposição. E ainda: Quem podia contribuir para interromper essa dinâmica e não o fez?
Isso não significa que não intervir seja concordar. O silêncio pode ocorrer por medo de se tornar o próximo alvo, insegurança, relações de poder, receio de piorar a situação ou simplesmente não saber como agir.
O confronto também nem sempre é adequado. O chamado aggressive defending ocorre quando alguém tenta defender a pessoa agredida fazendo ameaças, humilhando ou expondo o agressor (Jeyagobi et al., 2022). O fenômeno da agressão continua, apenas troca-se o alvo.
Interromper uma agressão não requer iniciar outra
Há outras possibilidades de defesa: não compartilhar ou incentivar, denunciar, oferecer apoio, procurar alguém com melhores condições de intervir ou, quando for seguro, expressar que a situação extrapolou o limite.
Essas respostas podem ser aprendidas. Intervenções que desenvolvem habilidades de ação, percepção de responsabilidade e confiança para intervir podem melhorar os comportamentos dos observadores (Chen et al., 2025).
Imagine algo humilhante sendo publicado em dois grupos: em um surgem risadas, outras pessoas são marcadas e novos compartilhamentos são feitos; no outro, ninguém encaminha, alguém diz que aquilo foi longe demais e outro oferece apoio à pessoa exposta, e, se necessário, procuram ajuda.
A publicação inicial foi a mesma, mas o ambiente social que a recebeu não é. Por isso, trabalhar apenas com a orientação “não agrida” exclui uma parte importante do fenômeno. É preciso ensinar também o grupo a não manter a agressão.
Nem sempre é possível impedir que uma agressão comece, mas é possível decidir não contribuir para que ela continue.
Prevenção e intervenção: o que é possível fazer?
Prevenir ou enfrentar a violência digital não é responsabilidade apenas de quem sofre. Quem participa, quem presencia, pessoas próximas, famílias e instituições também podem contribuir para interrompê-la.
Antes de reagir, comentar ou compartilhar, é importante considerar: “Eu preciso participar disso?”, “Estou ajudando ou ampliando a exposição?”, “Estou ajudando a transformar uma pessoa em alvo?”, “Se mais pessoas fizerem o que estou prestes a fazer, quais serão as consequências para quem está no centro da situação?”
Diante de uma agressão ou exposição, é importante evitar ações impulsivas, preservar conteúdos necessários, utilizar ferramentas de bloqueio e denúncia e buscar ajuda de pessoas de confiança ou, quando necessário, orientação institucional ou jurídica (SaferNet Brasil, s.d.-a). Também não é necessário acompanhar pessoalmente tudo o que está sendo dito. Se a situação exigir monitoramento, uma pessoa de confiança pode filtrar o conteúdo, evitando que cada nova postagem ou comentário chegue à pessoa exposta. Alterações de sono, medo, isolamento, evitação, dificuldade para estudar ou trabalhar, ruminação ou estado de alerta constante merecem atenção e podem indicar a necessidade de ajuda profissional.
Ao perceber a própria participação na agressão, a primeira medida é interromper o estímulo à circulação, deixando de comentar, compartilhar ou convocar outras pessoas para a discussão e retirando novas publicações, se possível. Também cabe refletir sobre o que motivou essa participação: raiva, indignação, diversão, curiosidade, pressão do grupo, desejo de pertencimento ou a convicção de que a pessoa merecia ser exposta? Se a ação causou danos, é importante reconhecê-los e buscar formas apropriadas de reparação, evitando justificativas que gerem ainda mais conteúdo.
Ao presenciar uma agressão, não compartilhar, não aumentar a audiência, denunciar, oferecer apoio ou procurar ajuda são ações relevantes. Nem sempre é necessário enfrentar publicamente quem agride, principalmente quando isso não for seguro. A defesa também não deve produzir uma nova onda de hostilidade.
Quando alguém próximo está sendo exposto, é importante compreender que apoiar não significa assumir o controle. Pressionar para que a pessoa responda, insistir para que apague suas redes, minimizar o ocorrido ou mostrar cada nova postagem e comentário podem aumentar ainda mais o sofrimento. Perguntas como “Como posso ajudar?”, “Você quer que eu acompanhe alguma coisa por você?” ou “Quer que eu verifique o que pode ser resolvido sobre isso?” permitem que a própria pessoa expresse suas necessidades. É importante escutá-la antes de definir ações e respeitar suas escolhas, orientando quando houver decisões que possam piorar a situação. O apoio não deve se tornar mais um fator estressante para quem já está sofrendo.
Quando a situação envolve adolescentes, os adultos não devem se omitir nem decidir por eles, mas incluí-los, sempre que possível, na construção da resposta, preservando sua segurança.
Quando uma agressão acontece em um ambiente sob responsabilidade de alguém, a resposta não pode depender exclusivamente de quem foi atacado. Famílias e instituições precisam estar atentas, não menosprezar o sofrimento e adotar estratégias compatíveis com a situação. Com crianças e adolescentes, não basta dizer que o cyberbullying é errado: abordagens educativas devem desenvolver empatia, assertividade, manejo das emoções, resolução de problemas e busca de ajuda.
Considerações Finais
A hiperconectividade ampliou a capacidade de participar da vida uns dos outros, aumentando as possibilidades de apoiar, acolher e intervir, mas também de expor, julgar e multiplicar uma agressão.
Compreender os mecanismos envolvidos não significa justificá-la, mas estabelecer melhores ações de prevenção e intervenção. Ensinar quem sofre a se proteger é necessário. Mas também é preciso ajudar quem agride a compreender seu comportamento para que possa interrompê-lo. E ensinar o grupo a não manter a agressão também é prevenção.
Uma violência digital raramente depende de uma única decisão ou ação. Assim como uma agressão cresce por meio de inúmeras pequenas participações, sua interrupção também exige atitudes responsáveis, apoio e tempo para que as consequências diminuam.
Não é possível eliminar o surgimento de agressões, mas é possível decidir não contribuir para dar continuidade a elas.
Ninguém é responsável por tudo o que acontece no ambiente digital, porém cada pessoa é responsável pelas escolhas que faz dentro dele.
Sobre a autoria
Keila Cristina Bomfim
- Psicóloga Clínica - CRP 08/20803
- Pós-graduada em Psicologia da Família
- Formação em Terapia Focada no Esquema, EMDR, Brainspotting e Neuromodulação
Referências
- ALDAO, Amelia; NOLEN-HOEKSEMA, Susan; SCHWEIZER, Susanne. Emotion-regulation strategies across psychopathology: a meta-analytic review. Clinical Psychology Review, v. 30, n. 2, p. 217-237, 2010. DOI: 10.1016/j.cpr.2009.11.004.
- ANDREWS, Jessica L.; AHMED, Susanne P.; BLAKEMORE, Sarah-Jayne. Navigating the social environment in adolescence: the role of social brain development. Biological Psychiatry, v. 89, n. 2, p. 109-118, 2021. DOI: 10.1016/j.biopsych.2020.09.012.
- BOTTINO, Sara Mota Borges et al. Cyberbullying and adolescent mental health: systematic review. Cadernos de Saúde Pública, v. 31, n. 3, p. 463-475, 2015. DOI: 10.1590/0102-311X00036114.
- BRODY, Nicholas; VANGELISTI, Anita L. Bystander intervention in cyberbullying. Communication Monographs, v. 83, n. 1, p. 1-26, 2016. DOI: 10.1080/03637751.2015.1044256.
- CALLIGARIS, Contardo. A adolescência. 2. ed. São Paulo: Publifolha, 2009. (Folha Explica).
- CHEN, Qiqi; LIN, Wenzhou; WU, Qianru; CHAN, Ko Ling. The effectiveness of interventions on bullying and cyberbullying bystander: a meta-analysis. Trauma, Violence, e Abuse, v. 26, n. 5, p. 938–954, 2025. DOI: 10.1177/15248380241297362.
- DOLTO, Françoise. A causa dos adolescentes. Tradução de Orlando dos Reis. Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2004.
- GIARDINI, Francesca; WITTEK, Rafael (ed.). The Oxford Handbook of Gossip and Reputation. New York: Oxford University Press, 2019. DOI: 10.1093/oxfordhb/9780190494087.001.0001.
- JEYAGOBI, Sobana et al. Factors influencing negative cyber-bystander behavior: a systematic literature review. Frontiers in Public Health, v. 10, 965017, 2022. DOI: 10.3389/fpubh.2022.965017.
- KILLER, Brittany et al. A meta-analysis of the relationship between moral disengagement and bullying roles in youth. Aggressive Behavior, v. 45, n. 4, p. 450-462, 2019. DOI: 10.1002/ab.21833.
- LASCHINGER, Heather K. Spence; NOSKO, Amanda. Exposure to workplace bullying and post- traumatic stress disorder symptomology: the role of protective psychological resources. Journal of Nursing Management, v. 23, n. 2, p. 252-262, 2015. DOI: 10.1111/jonm.12122.
- LIU, Jie et al. Moral disengagement and cyberbullying perpetration among adolescents: the moderating role of empathy. Children and Youth Services Review, v. 155, 107178, 2023. DOI: 10.1016/j.childyouth.2023.107178.
- MOLLEMAN, Lucas; CIRANKA, Simon; VAN DEN BOS, Wouter. Social influence in adolescence as a double-edged sword. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 289, 20220045, 2022. DOI: 10.1098/rspb.2022.0045.
- OBERMAIER, Magdalena; FAWZI, Nayla; KOCH, Thomas. Bystanding or standing by? How the number of bystanders affects the intention to intervene in cyberbullying. New Media e Society, v. 18, n. 8, p. 1491-1507, 2016. DOI: 10.1177/1461444814563519.
- POLANCO-LEVICÁN, Karina; SALVO-GARRIDO, Sonia. Bystander roles in cyberbullying: a mini-review of who, how many, and why. Frontiers in Psychology, v. 12, 676787, 2021. DOI: 10.3389/fpsyg.2021.676787.
- SAFERNET BRASIL. Estou enfrentando um problema de cyberbullying. Devo denunciar? SaferNet Brasil, [s. d.]. Disponível em: Orientações para situações de cyberbullying — SaferNet Brasil. Acesso em: 27 jul. 2026.
- SEQUEIRA, Stefanie L. et al. Social threat and adolescent mental health. Nature Reviews Psychology, v. 4, p. 639-653, 2025. DOI: 10.1038/s44159-025-00484-4.
- SOMERVILLE, Leah H. The teenage brain: sensitivity to social evaluation. Current Directions in Psychological Science, v. 22, n. 2, p. 121-127, 2013. DOI: 10.1177/0963721413476512.
- SULER, John. The online disinhibition effect. CyberPsychology e Behavior, v. 7, n. 3, p. 321-326, 2004. DOI: 10.1089/1094931041291295.
- VERKUIL, Bart; ATASAYI, Serpil; MOLENDIJK, Marc L. Workplace bullying and mental health: a meta-analysis on cross-sectional and longitudinal data.
- PLOS ONE, v. 10, n. 8, e0135225, 2015. DOI: 10.1371/journal.pone.0135225.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. What works to prevent violence against children online? Geneva: World Health Organization, 2022. ISBN 978-92-4-006206-1. Disponível em: What works to prevent violence against children online? — WHO. Acesso em: 27 jul. 2026.
- ZYCH, Izabela; ORTEGA-RUIZ, Rosario; MARÍN-LÓPEZ, Inmaculada. Cyberbullying: a systematic review of research, its prevalence and assessment issues in Spanish studies. Psicología Educativa, v. 22, n. 1, p. 5-18, 2016. DOI: 10.1016/j.pse.2016.03.002.
Precisa conversar com alguém?
Encontre psicólogos e psiquiatras no diretório da PsySon e escolha quem melhor combina com o que você procura.
Ver profissionaisÉ profissional de saúde mental?
Cadastre-se na PsySon para ampliar seu alcance e acompanhar quem procura cuidado.
Criar meu cadastro