
Artigo 01
Geração a um clique do prazer
Neurobiologia da recompensa, busca por prazer e autorregulação na era da hiperconectividade
Taína VasconcelosPsicóloga Clínica – CRP 02/16658
19 min de leitura
Resumo
Este artigo apresenta uma revisão narrativa sobre a produção e a neurotransmissão da dopamina, seu papel nos circuitos de motivação e recompensa e sua relação com a hiperconectividade que permeia a sociedade contemporânea. A partir de pesquisas neurocientíficas e psicológicas, diferencia-se a experiência hedônica do prazer (liking) da motivação para buscar recompensas (wanting) e da aprendizagem que associa pistas ambientais a resultados esperados. Discute-se o erro de previsão de recompensa, a influência da incerteza e das recompensas variáveis e a maneira pela qual notificações, curtidas e conteúdos sucessivos podem adquirir saliência motivacional. Estudos nacionais e internacionais sobre redes sociais, atenção, solidão, habilidades sociais, aspectos da conexão virtual e saúde mental são analisados com cautela, respeitando os limites dos desenhos correlacionais e evitando conclusões deterministas. Por fim, propõem-se estratégias de autorregulação, proteção da atenção, tolerância à espera e fortalecimento de vínculos, além de se indicarem situações em que pode haver necessidade de auxílio profissional para a promoção do bem-estar.
Introdução
Um clique. Tempo necessário para que respostas, compras, músicas, conversas e distrações possam ser acessadas em poucos segundos. A tecnologia ampliou possibilidades de comunicação, aprendizagem, trabalho e participação social. O problema começa quando a rapidez deixa de ser apenas uma facilidade e passa a organizar a forma como o indivíduo lida com o tempo, a frustração, a atenção e os próprios estados emocionais.
Não se pretende patologizar o uso da tecnologia, visto que sua inserção no cotidiano humano proporcionou avanços, facilitou o acesso a informações e possibilitou o estabelecimento de conexões com pessoas geograficamente distantes. Em um passado recente, quando o distanciamento físico se tornou obrigatório e preventivo, foi a conexão digital que permitiu a manutenção de muitos contatos.
A questão central é compreender como o acesso rápido e constante a conteúdos virtuais, característico da hiperconectividade, pode favorecer padrões repetitivos de busca por recompensa, dos quais a sinalização dopaminérgica participa, e como isso repercute no funcionamento do sujeito. Percebe-se que pistas de recompensa — sinais que anunciam a possibilidade de um evento recompensador —, novidades e oportunidades de validação social podem adquirir importância motivacional e favorecer comportamentos repetitivos.
Do ponto de vista psicológico, a pergunta mais relevante não é apenas quanto tempo alguém permanece diante de uma tela, mas qual função esse uso exerce. O celular e outros aparelhos podem funcionar como ferramentas de trabalho, lazer, companhia ou meios de vínculo. Também podem tornar-se uma forma automática de evitar o tédio, silenciar a ansiedade, adiar tarefas, fugir da solidão ou interromper experiências que exigem espera. Nesses casos, o uso digital participa da regulação emocional e precisa ser compreendido no contexto singular de cada pessoa.
Metodologia
Este material é um artigo de revisão narrativa e de educação em saúde psicológica. O conteúdo foi desenvolvido a partir de estudos disponíveis em bases científicas e acadêmicas, especialmente PubMed, PubMed Central, SciELO e PePSIC. Foram priorizados artigos de revisão, pesquisas experimentais e estudos brasileiros pertinentes à dopamina, à recompensa, à atenção e ao uso de redes sociais.
Por não se tratar de revisão sistemática, o levantamento não pretende esgotar a literatura nem produzir estimativas definitivas. Seu objetivo é organizar evidências relevantes em linguagem acessível, mantendo os cuidados necessários quanto à causalidade, à generalização dos achados e à diferença entre mecanismos neurobiológicos estudados em laboratório e comportamentos complexos observados na vida cotidiana.
Dopamina: produção, liberação e principais vias cerebrais
A dopamina é uma substância produzida pelo corpo humano que atua como neurotransmissor e neuromodulador, participando da comunicação entre as células nervosas. No sistema nervoso central, ela desempenha funções distintas, incluindo movimento, aprendizagem, motivação, atenção, tomada de decisão e processamento de recompensas. Por isso, reduzi-la à ideia de “substância do prazer” ou “hormônio da felicidade” é uma simplificação cientificamente inadequada, pois não representa toda a complexidade de sua atuação (Klein et al., 2019; Berke, 2018).
Em biologia, síntese refere-se à produção de uma substância a partir de componentes mais simples. A síntese da dopamina começa com a tirosina, um aminoácido presente no organismo e obtido também por meio da alimentação, que é convertido em L-DOPA pela enzima tirosina-hidroxilase. Essa etapa depende de oxigênio molecular e do cofator tetraidrobiopterina. Em seguida, a L-DOPA é convertida em dopamina pela descarboxilase de aminoácidos aromáticos, também denominada AADC.
Após ser sintetizada no citoplasma, a dopamina é transportada para vesículas sinápticas pelo transportador vesicular de monoaminas 2, o VMAT2. Quando o neurônio é ativado, a entrada de cálcio favorece a liberação vesicular. A dopamina, então, atua em receptores localizados em células próximas ou em regiões extrasinápticas. Depois de cumprir sua função, parte do neurotransmissor é recaptada pelo transportador DAT para ser reutilizada, enquanto outra parte é metabolizada principalmente pelas enzimas monoaminoxidase e catecol-O-metiltransferase (COMT). Esse conjunto de processos regula a disponibilidade e a duração do sinal dopaminérgico (German et al., 2015; Daubner; Le; Wang, 2011).
Entre as principais regiões com neurônios dopaminérgicos estão a área tegmentar ventral, a substância negra e determinadas áreas do hipotálamo. A substância negra participa de forma importante da modulação dos circuitos motores e dos hábitos. A área tegmentar ventral projeta-se para o núcleo accumbens, a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal, compondo circuitos mesolímbicos e mesocorticais relacionados à motivação, à aprendizagem e à atribuição de valor a estímulos. Já a via tuberoinfundibular participa da regulação hormonal.
Essas vias não funcionam isoladamente e não produzem uma única experiência psicológica. O significado do sinal dopaminérgico depende da região, do padrão temporal de liberação, do receptor ativado, do estado do organismo e do contexto. A dopamina pode favorecer a aproximação de uma meta, a aprendizagem de uma pista, a manutenção de um comportamento ou a atualização de uma expectativa, sem que isso corresponda necessariamente ao prazer consciente.
Uma das formas de compreender a relação entre dopamina e comportamento no ambiente digital passa pelo sistema de recompensa. A neurociência da recompensa diferencia pelo menos três componentes: o prazer que uma experiência realmente produz, a motivação para obtê-la e a aprendizagem que relaciona pistas, ações e resultados. Na literatura, esses componentes são frequentemente descritos como liking, wanting e learning (gostar, querer e aprender, respectivamente). Segundo Berridge e Robinson (2016, p. 670, tradução nossa), os mecanismos cerebrais que determinam o quanto uma recompensa é desejada podem não estar diretamente vinculados àqueles que determinam o quanto ela é apreciada. Assim, nem sempre aquilo que o sujeito deseja é vivenciado como prazer na mesma proporção.
A dopamina mesolímbica está especialmente relacionada ao wanting: ela contribui para que um estímulo ou uma pista adquira saliência e mobilize a aproximação. O prazer consciente envolve redes mais amplas e inclui pequenas regiões associadas ao prazer, descritas principalmente no núcleo accumbens e no pálido ventral, nas quais sistemas opioides e endocanabinoides participam do aumento do liking (Peciña; Smith; Berrige, 2006).
Essa distinção ajuda a compreender uma experiência comum: continuar procurando algo sem desfrutá-lo verdadeiramente. Uma pessoa pode abrir aplicativos, atualizar páginas ou buscar novos conteúdos repetidamente e, ao final, perceber pouco prazer, cansaço ou vazio. O comportamento foi mobilizado pela expectativa e pelo querer, mas a satisfação obtida foi breve ou insuficiente, o que pode favorecer novas buscas.
Erro de previsão de recompensa
Os neurônios dopaminérgicos respondem à relação entre aquilo que era esperado e aquilo que efetivamente aconteceu. Esse processo é denominado erro de previsão de recompensa e participa da aprendizagem por reforço. Schultz (2016, p. 23, tradução nossa) afirma: “Os erros de previsão de recompensa consistem nas diferenças entre as recompensas recebidas e previstas”.
Quando uma recompensa é melhor ou maior do que o esperado, observa-se aumento fásico da atividade de muitos neurônios dopaminérgicos. Esse aumento consiste em um crescimento rápido, breve e transitório da atividade dopaminérgica e participa da atualização da expectativa sobre a recompensa. Quando ela ocorre exatamente como previsto, a resposta tende a deslocar-se para a pista que a anuncia. Quando a recompensa esperada não acontece, pode ocorrer redução momentânea da atividade. Assim, sons, imagens, lugares ou notificações podem adquirir a capacidade de mobilizar o comportamento antes mesmo de a recompensa ser conhecida (Schyltz, 2016).
Quando não se tem certeza do que acontecerá diante das expectativas, também podem ocorrer alterações relevantes no sistema de recompensa. Em estudos experimentais com primatas, Fiorillo, Tobler e Schultz (2003) observaram atividade dopaminérgica sustentada durante a espera quando a ocorrência da recompensa era incerta, isto é, quando não havia garantia de que ela ocorreria. Essa incerteza pode aumentar a expectativa diante do que acontecerá em resposta ao estímulo. Esses achados não investigaram redes sociais, mas oferecem um modelo neurobiológico para compreender por que resultados imprevisíveis podem manter a busca.
No ambiente digital, a pessoa não sabe qual publicação aparecerá, se uma mensagem será importante ou quantas reações receberá. A variabilidade não prova que uma plataforma cause dependência, mas pode favorecer a repetição do gesto de verificar. A pista adquire valor motivacional porque sinaliza a possibilidade — e não a certeza — de uma recompensa. Segundo Frullani (2025), com base em material da Revista Arco publicado em 2021, a dificuldade de prever quando e em que intensidade a recompensa ocorrerá pode favorecer a manutenção da expectativa e a busca por novos estímulos.
O ambiente digital como “máquina de busca”
O custo cognitivo do ambiente digital não se limita ao tempo total de uso. Interrupções frequentes podem fragmentar o fluxo de pensamento e mobilizar recursos atencionais. Em um experimento, os participantes não precisavam tocar no aparelho para apresentar piora de desempenho. Segundo Stothart, Mitchum e Yehnert (2015, p. 893, tradução nossa), “as notificações do celular, sozinhas, prejudicaram significativamente o desempenho em uma tarefa que exigia atenção”.
A notificação funciona como pista de uma possível recompensa social ou de informações rápidas. Mesmo ignorada, ela pode produzir uma mudança de orientação: a mente abandona parcialmente a atividade em curso para avaliar o que pode ter acontecido. Quando esse processo se repete muitas vezes, tarefas demoradas e pouco estimulantes podem parecer mais difíceis de sustentar.
As redes sociais exemplificam esse processo. Além de apresentarem mecanismos capazes de capturar a atenção de seus usuários, acrescentam um componente de avaliação pública. Em uma simulação semelhante ao Instagram, adolescentes foram mais propensos a curtir imagens apresentadas com muitas curtidas e demonstraram respostas neurais diferentes diante de conteúdos populares. O estudo sugere que a aprovação do grupo pode influenciar escolhas e ativar circuitos relacionados à recompensa (Sherman et al., 2016).
Na adolescência, a necessidade de pertencimento e aceitação pelo grupo pode ganhar especial relevância. Pesquisas brasileiras ajudam a contextualizar o tema, embora seus resultados não sejam conclusivos nem permitam estabelecer causalidade. Em estudo com 482 adolescentes, Terroso e Argimon (2016) observaram associação entre indicadores de dependência de internet e maior dificuldade em algumas classes de habilidades sociais, como autocontrole, assertividade, abordagem afetiva e desenvoltura social. Apesar desses achados, as autoras também ressaltam que a internet pode favorecer certos contatos e formas de comunicação. Em uma amostra de 234 universitários, Fonsêca et al. (2018) observaram que, quanto maior o uso dependente de redes sociais, maior era a percepção de solidão. Esse resultado sugere que a conexão virtual, embora possibilite diferentes formas de contato, não elimina, por si só, a experiência de solidão.
Quando esperar se torna insuportável
A vida psíquica exige a construção gradual da capacidade de esperar, suportar frustrações e adiar satisfações. Freud descreveu a passagem do predomínio do princípio do prazer para formas de funcionamento orientadas pelo princípio da realidade: o sujeito aprende que nem todo desejo pode ser atendido imediatamente e que, muitas vezes, é necessário tolerar desconfortos no presente para alcançar resultados mais consistentes no futuro (Freud, 1911/2010).
Ambientes digitais não anulam a capacidade de esperar ou sustentar a atenção. Entretanto, quando pausas e momentos de tédio são frequentemente preenchidos por estímulos digitais, podem existir menos oportunidades para permanecer em atividades pouco estimulantes. Estudos indicam que as notificações podem interferir na atenção e que o uso de redes sociais para aliviar o tédio está associado a padrões problemáticos de utilização (Stothart; Mitchum; Yehnert, 2015; Stockdale; Coyne, 2020; Regan et al., 2020). Nesse contexto, algumas pessoas podem experimentar maior dificuldade para sustentar tarefas monótonas ou permanecer sem estimulação imediata. Para algumas delas, desconectar-se pode ser vivenciado com desconforto, inquietação ou forte impulso de voltar ao uso, especialmente quando há padrões problemáticos de utilização.
A facilidade de acesso às recompensas que caracteriza os ambientes virtuais pode contribuir para a dificuldade em esperar situações processuais, que exigem etapas ou demandam mais tempo. Lembke (2022), em seu livro Nação dopamina, chama atenção para o fato de que estímulos disponíveis de maneira rápida, frequente e praticamente ilimitada podem favorecer padrões repetitivos de consumo. No ambiente digital, não é necessário esperar muito tempo ou realizar grande esforço para encontrar novidade, entretenimento ou interação social, condições que podem aumentar a tendência à repetição do comportamento.
Na clínica psicológica, é importante diferenciar impulso e desejo. O impulso exige descarga e resposta imediata; o desejo precisa de tempo, linguagem, elaboração e contato com a própria história. A vontade de abrir uma rede social pode não ser apenas a vontade de ver conteúdos. Pode expressar ansiedade, cansaço, solidão, medo de ficar de fora, busca por acolhimento ou dificuldade de iniciar uma tarefa. Esses elementos podem participar da busca repetitiva por alívio ou satisfação, sem que o comportamento seja explicado exclusivamente pela dopamina.
Cheios de tudo e vazios de si
O excesso de estímulos pode produzir um paradoxo: há muito para ver, ouvir e consumir, mas pouco espaço interno para elaborar o que se vive. A pessoa permanece conectada e, ao mesmo tempo, distante de si. Sabe o que está em alta e o que os outros estão fazendo, mas encontra dificuldade para reconhecer o próprio cansaço, nomear sentimentos ou responder à pergunta: “o que eu realmente quero?”.
Winnicott relacionou a maturidade emocional à capacidade de estar só sem sentir-se abandonado. Essa capacidade não significa isolamento, mas a possibilidade de permanecer em contato consigo mesmo, sustentado por experiências internas de segurança (Winnicott, 1958/1965). Em uma cultura de estímulos ininterruptos, recuperar momentos de silêncio, criatividade e presença pode ser uma forma de reencontro com a própria subjetividade.
A tecnologia não deve ser responsabilizada isoladamente pelo vazio emocional. Ela pode intensificar padrões já existentes, oferecer alívio temporário ou tornar menos visíveis conflitos que precisam ser compreendidos. Por isso, uma abordagem psicológica adequada evita moralizar o uso e pergunta o que o comportamento protege, repete, substitui ou tenta regular.
Diante do exposto, para que o sujeito tenha maior qualidade de vida, é importante buscar uma reorganização dos hábitos relacionados ao uso da tecnologia, favorecendo maior autorregulação e um uso mais consciente dos recursos digitais. Não se trata de abster-se completamente das conexões que o universo virtual permite nem de rivalizar com a funcionalidade desse recurso tão presente no cotidiano, mas de compreender que ainda é possível manter-se conectado também às experiências presenciais e, assim, dosar a hiperconexão. A redução da exposição contínua a estímulos e a construção de práticas digitais mais equilibradas podem contribuir para a proteção da atenção e para a diminuição de padrões problemáticos de uso (Fernandes; Maia, Pontes, 2019; Costa; Silva, 2023; Souza et al., 2026). Do ponto de vista psicológico, esse processo também pode envolver maior consciência sobre as próprias escolhas e a construção de comportamentos coerentes com objetivos e valores pessoais (Monteiro et al., 2015; Machado et al., 2023).
Estratégias de autorregulação e cuidado psicológico
Diante do exposto, surge a necessidade de buscar estratégias que favoreçam uma relação mais equilibrada com o uso da tecnologia e com os estímulos digitais. A dopamina é necessária ao funcionamento saudável do organismo; portanto, não se trata de reduzir sua produção, mas de reorganizar hábitos e diminuir respostas automáticas associadas ao uso. Com base em estudos recentes sobre o uso problemático da tecnologia e das redes sociais, observam-se algumas mudanças importantes e sustentáveis, que costumam nascer de pequenas decisões repetidas, e não de regras extremas. Não se trata, como já dito anteriormente, de privar o uso em sua totalidade nem de tratar os efeitos dopaminérgicos como adversários do cérebro, mas de encontrar formas mais saudáveis de lidar com esses estímulos. Vale ressaltar que as estratégias abaixo não substituem a avaliação clínica quando há sofrimento ou prejuízo funcional, mas podem ajudar a tornar a relação com os estímulos mais consciente.
- Mapear os gatilhos. Observar em quais horários, contextos e estados emocionais os aparelhos e as ferramentas digitais são acionados automaticamente pode ajudar a compreender a função que esse comportamento exerce no cotidiano. O automonitoramento de pensamentos, emoções e gatilhos situacionais constitui uma das estratégias utilizadas nas intervenções voltadas ao uso problemático da internet (Isidório, DeSousa; Bezerra, 2026).
- Reduzir estímulos automáticos. Diminuir notificações não essenciais e estabelecer momentos ou ambientes com menor exposição ao celular pode reduzir interrupções e favorecer um uso mais intencional da tecnologia, evitando que a atenção seja capturada sempre que uma notificação aparece na tela inicial do aparelho (Souza et al., 2026).
- Proteger a atenção. Organizar períodos destinados a uma única atividade e reduzir a alternância constante entre tarefas e aplicativos pode ajudar a preservar a atenção, especialmente diante de um ambiente digital caracterizado por frequentes interrupções e grande quantidade de informações (Souza et al., 2026).
- Ampliar fontes de satisfação fora das telas. Atividades físicas, leitura, estudo, projetos criativos, atividades culturais e outras experiências significativas podem diversificar as fontes de interesse e satisfação, reduzindo a centralidade dos estímulos digitais na rotina. Essas atividades podem contribuir para o bem-estar e diversificar as fontes de satisfação, sem concentrá-las exclusivamente no ambiente digital (Costa; Silva, 2023; Isidório, DeSousa, Bezerra, 2026).
- Exercitar a presença e a tolerância à espera. Criar momentos do cotidiano sem estimulação digital paralela pode favorecer maior consciência sobre o impulso de buscar aparelhos tecnológicos e oferecer oportunidades para lidar com períodos de espera e menor estimulação. A literatura tem associado o uso excessivo das redes sociais à fragmentação da atenção e à baixa tolerância à frustração (Souza et al., 2026). Nesse sentido, o monitoramento do acesso, a identificação de gatilhos e o desenvolvimento de estratégias de controle dos impulsos podem contribuir para um uso menos automático da tecnologia (Isidório, DeSousa, Bezerra, 2026).
- Reconhecer o que se busca por meio da conexão. Para além do tempo de uso, é importante compreender que função a tecnologia exerce na experiência de cada pessoa. Perguntar o que antecede o impulso de se conectar, quais estados emocionais estão envolvidos e o que se espera encontrar naquela experiência pode ampliar a consciência sobre o comportamento (Santos; Silva, 2018; Isidório; DeSousa; Bezerra, 2026). Nessa perspectiva, investir em autoconhecimento pode ajudar a identificar pensamentos, emoções, gatilhos e padrões repetitivos, favorecendo maior consciência sobre o próprio comportamento e ampliando as possibilidades de escolha diante do uso automático da tecnologia.
- Cultivar vínculos significativos dentro e fora das redes. As tecnologias podem facilitar relações e oferecer importantes formas de contato social, mas o uso dependente das redes também tem sido associado à percepção de solidão e a dificuldades em algumas habilidades sociais. Por isso, preservar oportunidades de convivência presencial, escuta, reciprocidade e intimidade pode contribuir para uma vida relacional mais diversificada (Fonsêca et al., 2018; Terroso; Argimon, 2016).
- Procurar ajuda profissional. Caso o indivíduo perceba perda persistente de controle, prejuízo no sono, queda importante no rendimento acadêmico ou profissional, abandono de atividades, conflitos familiares frequentes, irritabilidade intensa ao tentar reduzir o uso ou utilização repetitiva da tecnologia como principal forma de escapar do sofrimento emocional, torna-se necessária uma avaliação profissional para intervenções adequadas. É importante considerar que esses sinais não confirmam, isoladamente, um diagnóstico. Devem-se observar a duração, a intensidade, o contexto, as comorbidades, os recursos familiares e os prejuízos concretos. A psicoterapia pode ajudar a identificar o que sustenta a repetição, ampliar recursos de autorregulação, fortalecer a tolerância à frustração e recuperar a capacidade de escolha (Costa; Silva, 2023; Isidório, Andrade et al., Isidório; DeSousa; Bezerra, 2026) DeSousa, Bezerra, 2026).
Considerações finais
A dopamina não é a molécula do prazer nem a explicação única para os comportamentos contemporâneos. Ela integra sistemas neurobiológicos complexos que participam da motivação, da aprendizagem, da antecipação e da atualização de expectativas. A experiência de prazer depende de redes mais amplas, e a busca pode continuar mesmo quando a satisfação diminui.
Estar conectado ao mundo virtual não constitui, por si só, um problema nem necessariamente causa adoecimento. No entanto, o uso pode tornar-se problemático quando há perda de controle e quando passa a ocupar um lugar central ou quase exclusivo na vida do sujeito. É importante lembrar que redes sociais, notificações e conteúdos variáveis podem tornar-se sinais de recompensa e favorecer verificações repetitivas, mas seus efeitos não são universais nem generalizados. O funcionamento psicológico depende da história do sujeito, do contexto, da qualidade dos vínculos, da finalidade do uso e da presença de vulnerabilidades anteriores.
Reequilibrar a relação com os estímulos não significa rejeitar a tecnologia. Trata-se de recuperar a possibilidade de esperar, sustentar a atenção, reconhecer necessidades emocionais, escolher recompensas coerentes com valores pessoais e construir uma satisfação menos imediata e mais duradoura. A pergunta que permanece é: qual pequena mudança pode ser realizada hoje para que o prazer deixe de ser apenas uma busca incessante e volte a fazer parte de uma vida com sentido?
Diante do exposto, evidencia-se a necessidade de ampliar os estudos sobre essa realidade contemporânea. Este artigo não se propôs a esgotar o assunto nem a estabelecer uma relação causal direta entre o uso da tecnologia e o adoecimento, mas buscou discutir como determinadas características do ambiente digital podem interagir com mecanismos de recompensa e favorecer padrões repetitivos de busca, sem reduzir comportamentos complexos à ação isolada da dopamina.
Sobre a autoria
Taína Vasconcelos
- Psicóloga clínica - CRP 02/16658
- Esp. em Saúde Mental e Avaliação Psicológica, Terapeuta EMDR
Referências
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