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Mulher jovem usando um smartphone diante de um fundo azul com conexões digitais.

Artigo 01

Geração a um clique do prazer

Neurobiologia da recompensa, busca por prazer e autorregulação na era da hiperconectividade

Taína VasconcelosPsicóloga Clínica - CRP 02/16658

5 min de leitura

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Talvez o maior desafio da era digital não seja apenas estar conectado ao mundo, mas aprender a não se desconectar de si mesmo.

Esta revista informativa foi elaborada para orientar o público geral sobre a relação entre tecnologia, busca por prazer, atenção e autorregulação emocional. O objetivo não é condenar o uso de celulares, redes sociais ou outros recursos digitais, mas ajudar cada pessoa a compreender melhor como esses estímulos podem influenciar hábitos cotidianos e escolhas pessoais. O material segue uma proposta de educação em saúde psicológica, com base no artigo “Geração a um clique do prazer”, de Taína Vasconcelos, e em estudos citados pela autora sobre dopamina, recompensa, atenção, redes sociais e saúde mental.

O que é dopamina?

A dopamina é uma substância produzida pelo corpo que participa da comunicação entre células nervosas. Ela está envolvida em funções como movimento, aprendizagem, motivação, atenção, tomada de decisão e processamento de recompensas. Por isso, dizer que a dopamina é apenas a “substância do prazer” é uma simplificação inadequada (Berke, 2018; Klein et al., 2019). Em termos simples, a dopamina ajuda o cérebro a perceber o que pode ser importante, interessante ou recompensador. Ela participa da expectativa e da motivação para buscar algo, mas não explica sozinha todos os comportamentos humanos.

Prazer, desejo e aprendizagem

A neurociência diferencia três processos importantes: gostar, querer e aprender. Gostar está relacionado ao prazer sentido; o querer envolve a motivação para buscar uma recompensa; aprender refere-se à associação entre pistas, ações e resultados. Uma pessoa pode continuar procurando novidades nas redes sociais mesmo quando já não sente grande satisfação com isso (Berridge; Robinson, 2016). Esse ponto ajuda a entender por que alguém pode abrir aplicativos repetidas vezes, atualizar páginas ou verificar notificações mesmo sem ter uma necessidade real naquele momento. Muitas vezes, o comportamento é movido pela expectativa de encontrar algo interessante.

Por que as notificações prendem tanto a atenção?

Notificações, curtidas, mensagens e novos conteúdos funcionam como pistas de possíveis recompensas. O cérebro não sabe exatamente o que virá: pode ser uma mensagem importante, uma reação positiva ou uma novidade. Essa incerteza pode aumentar a expectativa e favorecer a repetição do gesto de verificar o celular (Fiorillo; Tobler; Schultz, 2003; Schultz, 2016). Além disso, estudos indicam que notificações podem interferir na atenção mesmo quando a pessoa não toca no Aparelho. A simples presença de um alerta já pode deslocar parte do foco para o que pode ter acontecido (Stothart; Mitchum; Yehnert, 2015).

Quando o uso digital merece atenção?

O problema não está apenas no tempo de tela, mas na função que o uso digital exerce. O celular pode ser ferramenta de trabalho, estudo, lazer e vínculo. Porém, também pode funcionar como forma automática de evitar o tédio, aliviar ansiedade, adiar tarefas, escapar da solidão ou interromper experiências que exigem espera. O uso merece atenção quando há perda de controle, prejuízo no sono, queda importante no rendimento, conflitos familiares frequentes, irritabilidade ao tentar reduzir o uso ou abandono de atividades importantes. Esses sinais não confirmam, sozinhos, um diagnóstico, mas indicam a necessidade de observar o contexto e, se necessário, buscar ajuda profissional.

Estratégias práticas de autorregulação

  1. Mapeie seus gatilhos: observe em quais horários, lugares ou emoções você costuma pegar o celular ou qualquer outra tela, automaticamente.
  2. Reduza notificações não essenciais: mantenha alertas apenas para o que realmente precisa de resposta rápida.
  3. Proteja períodos de foco: escolha momentos do dia para realizar uma tarefa por vez, sem alternar constantemente entre aplicativos ou outras tarefas que exijam a mesma atenção.
  4. Inclua pausas sem tela: experimente esperar em filas, caminhar ou descansar sem preencher todo intervalo com estímulos digitais. Atividades físicas, leitura, estudo, projetos criativos, atividades culturais e outras experiências significativas podem diversificar as fontes de interesse e satisfação.
  5. Exercitar a tolerância a espera: Criar momento do cotidiano que não se tenha uma relação direta com as telas como forma de suprir o tédio ou fuga da frustração da espera. Buscar menor estimulação com o objetivo de não dividir a atenção.
  6. Pergunte o que você está buscando: antes de abrir uma rede social, questione se há cansaço, ansiedade, solidão, curiosidade, procrastinação ou necessidade de acolhimento e se é isto que está motivando sua busca.
  7. Cultive vínculos significativos: use a tecnologia para aproximar pessoas, mas preserve espaços de convivência, escuta e reciprocidade fora das redes. Ter espaço de trocas presenciais
  8. Procure ajuda profissional: se houver sofrimento intenso ou prejuízo persistente diante do uso da tecnologia, busque avaliação com psicóloga(o) ou outro profissional de saúde qualificado.

Mensagem final

Reequilibrar a relação com a tecnologia não significa abandonar o mundo digital. Não se trata de colocar o uso como fonte total de prejuízo para a saúde da pessoa, mas entender que uma relação nociva poderá causar sofrimento. Significa recuperar a possibilidade de escolher: quando conectar, por que conectar e como proteger a atenção, os vínculos e o bem-estar. Uma pequena mudança repetida com constância pode ser mais sustentável do que uma regra extrema mantida por pouco tempo.

Referências

  • BERKE, Joshua D. What does dopamine mean? Nature Neuroscience, v. 21, n. 6, p. 787-793, 2018. DOI: 10.1038/s41593-018-0152-y. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29760524/. Acesso em: 09 ago. 2026.
  • BERRIDGE, Kent C.; ROBINSON, Terry E. Liking, wanting, and the incentive-sensitization theory of addiction. American Psychologist, v. 71, n. 8, p. 670-679, 2016. DOI: 10.1037/amp0000059. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5171207/. Acesso em: 07 ago. 2026.
  • FIORILLO, Christopher D.; TOBLER, Philippe N.; SCHULTZ, Wolfram. Discrete coding of reward probability and uncertainty by dopamine neurons. Science, v. 299, n. 5614, p. 1898-1902, 2003. DOI: 10.1126/science.1077349. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12649484/. Acesso em: 13 ago. 2026.
  • KLEIN, Marianne O. et al. Dopamine: functions, signaling, and association with neurological diseases. Cellular and Molecular Neurobiology, v. 39, n. 1, p. 31-59, 2019. DOI: 10.1007/s10571-018-0632-3. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30446950/. Acesso em: 10 ago. 2026.
  • SCHULTZ, Wolfram. Dopamine reward prediction error coding. Dialogues in Clinical Neuroscience, v. 18, n. 1, p. 23-32, 2016. DOI: 10.31887/ DCNS.2016.18.1/wschultz. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4826767/. Acesso em: 13 ago. 2026.
  • STOTHART, Cary; MITCHUM, Ainsley; YEHNERT, Courtney. The attentional cost of receiving a cell phone notification. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, v. 41, n. 4, p. 893-897, 2015. DOI: 10.1037/xhp0000100. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih. gov/26121498/. Acesso em: 13 ago. 2026.

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