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Casal sentado no sofá; o homem olha para o celular enquanto a mulher demonstra distanciamento emocional.

Artigo 02

Casais hiperconectados e emocionalmente distantes

Quando o celular, os jogos e a inteligência artificial passam a disputar o lugar da escuta, da presença e do cuidado dentro da relação

Ivan Dario Mancilla AmayaPsicólogo Clínico - CRP 07/33958

7 min de leitura

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INTRODUÇÃO

Era para ser apenas um jantar comum. No entanto, em poucos minutos, a mesa transformou-se em uma cena cada vez mais frequente nos relacionamentos contemporâneos: de um lado, uma pessoa respondia a mensagens; do outro, a outra permanecia envolvida em um jogo digital; entre ambas, a atenção era fragmentada por notificações, vídeos curtos e estímulos constantes. Não havia conflito explícito, discussão ou intenção deliberada de ferir. Ainda assim, algo essencial estava ausente: a presença emocional.

A cena parece banal justamente porque se tornou comum. Paradoxalmente, nunca houve tantas ferramentas para comunicação e, ao mesmo tempo, tantos relatos de solidão dentro de vínculos afetivos. A tecnologia encurtou distâncias geográficas, mas nem sempre aproximou emocionalmente os casais. Em muitos lares, o parceiro ou a parceira não disputa atenção com outra pessoa, mas com fluxos incessantes de notificações, redes sociais, jogos, vídeos e interações digitais que parecem mais urgentes do que quem está fisicamente presente.

Tecnologia, atenção e interferência na vida conjugal

Essa realidade tem sido discutida na literatura científica por meio do conceito de technoference, termo utilizado para descrever a interferência cotidiana da tecnologia nas interações do casal, marcada por interrupções, distrações e fragmentação da atenção em momentos que deveriam favorecer o encontro e a disponibilidade afetiva (McDaniel; Coyne, 2016). Assim, o problema não se limita à quantidade de tempo diante das telas, mas envolve o modo como elas ocupam o lugar da escuta, do cuidado e da responsividade emocional. Estudos sobre partner phubbing indicam que ignorar o parceiro em favor do smartphone está associado à menor satisfação no relacionamento, ao aumento de conflitos e à redução da percepção de responsividade emocional (Roberts; David, 2016). Quando uma pessoa se percebe constantemente colocada em segundo plano por causa de um dispositivo, a qualidade do vínculo tende a ser prejudicada. Na prática, muitos afastamentos não começam por grandes rupturas, mas por pequenas ausências repetidas: uma conversa interrompida por uma notificação, uma refeição atravessada pelo uso do celular, uma resposta automática enquanto o outro compartilha algo importante. Tais gestos podem parecer inofensivos, porém comunicam uma mensagem silenciosa: naquele momento, há algo mais importante do que a pessoa que está diante de mim.

Presença física e ausência emocional

O aspecto central dessa discussão não é apenas o excesso de exposição às telas, mas a substituição progressiva das relações presenciais por interações digitais ou artificiais. Em determinados casais, a conexão emocional desloca-se, de modo gradual, para o ambiente online. A pessoa permanece fisicamente presente, mas emocionalmente indisponível. O parceiro fala, mas não se sente ouvido; compartilha algo relevante, mas recebe respostas automáticas; busca acolhimento, mas encontra distração. Esse afastamento raramente ocorre de forma abrupta. Ele se instala aos poucos, em conversas interrompidas, refeições distraídas e noites sucessivas diante de telas. Quando o casal percebe a distância construída, muitas vezes ela já se tornou parte da rotina. A casa continua sendo compartilhada, mas pensamentos, sentimentos, angústias e experiências passam a ser cada vez menos divididos. A tecnologia, contudo, nem sempre é a causa inicial do distanciamento. Em diversas situações, ela funciona como estratégia de evitação diante de dificuldades emocionais já existentes. Cansaço, sobrecarga, estresse, ressentimentos acumulados, medo de conflito, insegurança afetiva e dificuldade de demonstrar vulnerabilidade podem favorecer a busca por ambientes digitais, nos quais há sensação de controle, previsibilidade e recompensa imediata. Nesse sentido, o uso compensatório da internet pode funcionar como mecanismo de enfrentamento, enquanto padrões de proteção e retirada reduzem a disponibilidade emocional no vínculo (Kardefelt-Winther, 2014; Johnson, 2019).

Redes sociais, jogos digitais e inteligência artificial

As redes sociais aprofundam esse processo ao transformar a comparação em hábito. A relação concreta passa a ser confrontada com imagens cuidadosamente selecionadas de outras vidas: viagens perfeitas, corpos editados, declarações públicas e rotinas aparentemente impecáveis. Quando a validação passa a vir mais das curtidas do que do olhar do parceiro, a intimidade perde espaço e a relação real pode parecer insuficiente diante da vitrine digital. Os jogos digitais também ocupam lugar relevante nesse cenário. Desenvolvidos para capturar atenção, prolongar o engajamento e oferecer recompensas rápidas, eles podem deixar de ser apenas entretenimento e passar a competir com tarefas cotidianas, descanso, diálogo e convivência conjugal. A Organização Mundial da Saúde reconhece que determinados padrões de uso de jogos podem comprometer significativamente o funcionamento cotidiano e o bem-estar psicológico (World Health Organization, 2019). A inteligência artificial acrescenta um novo capítulo a essa discussão. Pela primeira vez, uma pessoa pode buscar acolhimento emocional, conselho, validação ou companhia conversacional sem recorrer a outro ser humano. Chatbots e assistentes conversacionais oferecem respostas imediatas, linguagem personalizada e aparência de disponibilidade contínua. Embora esses recursos possam oferecer apoio em situações específicas, especialistas alertam que não devem substituir relacionamentos interpessoais significativos nem acompanhamento profissional quando necessário (American Psychological Association, 2024).

A tecnologia como ferramenta, não como substituta do vínculo

É importante ressaltar que a tecnologia não é inimiga do relacionamento. Smartphones, redes sociais, jogos e ferramentas de inteligência artificial podem aproximar pessoas, facilitar a comunicação, fortalecer laços familiares e enriquecer a vida cotidiana. O problema surge quando o uso deixa de ser consciente e passa a ocorrer sem limites claros, ocupando o espaço da presença, da escuta e da prioridade afetiva. Portanto, a questão central não está na existência das telas, mas na forma como administramos atenção, tempo e disponibilidade emocional. Não é a tecnologia, por si só, que enfraquece o vínculo; é o espaço que se permite que ela ocupe dentro dele. Estratégias para proteger a conexão conjugal. Proteger o vínculo conjugal exige mais do que simplesmente “desconectar um pouco”. Exige a criação de espaços intencionais de presença, nos quais o casal interrompe distrações para conversar, ouvir com atenção, demonstrar interesse e realizar atividades em conjunto. Algumas estratégias podem contribuir para esse processo:

  1. Definir momentos protegidos sem telas, como refeições, os primeiros minutos ao chegar em casa ou o período antes de dormir.
  2. Criar um breve encontro diário de 10 a 15 minutos para conversar sem interrupções sobre o dia, as dificuldades enfrentadas e as formas possíveis de apoio mútuo.
  3. Estabelecer acordos, e não fiscalizações, sobre notificações, jogos, redes sociais e uso de inteligência artificial.
  4. Observar quais emoções antecedem o uso da tecnologia, como cansaço, ansiedade, solidão, ressentimento, tédio ou medo de conflito.
  5. Retomar rituais de conexão, como caminhar, compartilhar refeições, orar, realizar atividades em comum ou planejar momentos semanais a dois.
  6. Praticar uma escuta responsiva, buscando compreender antes de explicar, corrigir ou defender-se.

Pesquisas sobre estabilidade conjugal indicam que a sensação de ser ouvido, compreendido e emocionalmente acolhido está entre os fatores relevantes para a satisfação e a longevidade dos relacionamentos (Gottman; Silver, 2015). Dessa forma, cultivar presença emocional torna-se uma prática fundamental para preservar a qualidade do vínculo.

Considerações finais

Talvez o maior desafio contemporâneo não seja rejeitar a tecnologia, mas aprender a utilizá-la de modo que fortaleça, e não substitua, os vínculos que dão sentido à vida. Quando a distância emocional se torna automática e as tentativas de aproximação terminam em crítica, defesa, silêncio ou fuga para as telas, a psicoterapia individual ou de casal pode ser um recurso importante. Em um espaço profissional, é possível compreender os fatores que sustentam o afastamento, desenvolver formas mais seguras de comunicação e reconstruir a presença emocional sem transformar a tecnologia em vilã. Buscar ajuda não significa que o relacionamento fracassou; pode indicar que o casal decidiu cuidar do vínculo antes que a distância se torne maior.

Referências

  • ALDAO, Amelia; NOLEN-HOEKSEMA, Susan; SCHWEIZER, Susanne. Emotion-regulation strategies across psychopathology: a meta-analytic review. Clinical Psychology Review, v. 30, n. 2, p. 217-237, 2010. DOI: 10.1016/j.cpr.2009.11.004.
  • CHEN, Qiqi; LIN, Wenzhou; WU, Qianru; CHAN, Ko Ling. The effectiveness of interventions on bullying and cyberbullying bystander: a meta-analysis. Trauma, Violence, & Abuse, v. 26, n. 5, p. 938-954, 2025. DOI: 10.1177/15248380241297362.
  • LASCHINGER, Heather K. Spence; NOSKO, Amanda. Exposure to workplace bullying and post-traumatic stress disorder symptomology: the role of protective psychological resources. Journal of Nursing Management, v. 23, n. 2, p. 252-262, 2015. DOI: 10.1111/jonm.12122.
  • POLANCO-LEVICÁN, Karina; SALVO-GARRIDO, Sonia. Bystander roles in cyberbullying: a mini-review of who, how many, and why. Frontiers in Psychology, v. 12, 676787, 2021. DOI: 10.3389/fpsyg.2021.676787.
  • SAFERNET BRASIL. Estou enfrentando um problema de cyberbullying. Devo denunciar? SaferNet Brasil, [s. d.]. Disponível em: Orientações para situações de cyberbullying — SaferNet Brasil. Acesso em: 27 jul. 2026.

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