
Artigo 04
Que infância é essa?
Como o mundo digital está transformando a infância e quais caminhos ainda podem ser adotados para protegê-la
Thais Seidiel de Souza MarquesPsicóloga Clínica – CRP 06/91343
30 min de leitura
Resumo
Este artigo discute as transformações da infância no contexto da cultura digital, com ênfase nos impactos do uso excessivo de telas sobre o desenvolvimento infantil. Parte-se da compreensão de que a tecnologia integra a vida contemporânea e pode oferecer benefícios quando utilizada de forma equilibrada, supervisionada e adequada à idade. Entretanto, analisa-se que a hiperconectividade, ao organizar grande parte da rotina das crianças, pode reduzir experiências essenciais ao desenvolvimento saudável, como o brincar livre, o convívio presencial, o contato com a natureza, a tolerância ao tédio, a espera, a leitura, o movimento corporal e a construção da autorregulação emocional. O texto articula contribuições da psicologia do desenvolvimento, da neurociência e de estudos recentes sobre infância e tecnologia, destacando possíveis prejuízos relacionados à atenção sustentada, ao sono, à regulação emocional, às habilidades sociais e à capacidade de interromper o uso de dispositivos digitais. Defende-se que o papel da família não consiste em eliminar completamente as telas, mas em estabelecer limites claros, fortalecer vínculos afetivos, oferecer experiências diversificadas e modelar hábitos saudáveis. Conclui-se que a proteção da infância na era digital exige presença adulta, intencionalidade educativa e equilíbrio entre tecnologia, convivência, brincadeira e desenvolvimento emocional.
Introdução
A infância contemporânea tem sido profundamente atravessada pela presença das tecnologias digitais. Celulares, tablets, televisores conectados, jogos eletrônicos, redes sociais e plataformas de vídeos passaram a integrar, de forma cada vez mais precoce, a rotina das crianças, modificando suas formas de brincar, aprender, esperar, interagir e lidar com emoções. Embora os recursos digitais façam parte da realidade social atual e possam oferecer possibilidades de aprendizagem, comunicação e entretenimento, seu uso excessivo ou desregulado tem despertado preocupações entre famílias, educadores e profissionais da saúde.
O desenvolvimento infantil ocorre a partir das experiências vividas no cotidiano. Brincadeiras livres, contato com a natureza, convivência presencial, movimento corporal, escuta de histórias, participação em atividades familiares e vivência de pequenas frustrações são elementos fundamentais para a construção de habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Nesse sentido, quando as telas passam a ocupar espaços antes destinados a essas experiências, podem interferir no desenvolvimento da atenção sustentada, da criatividade, da autorregulação emocional, da tolerância à frustração, da qualidade do sono e das relações interpessoais.
Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo refletir sobre os impactos da hiperconectividade e do uso excessivo de telas na infância, analisando de que modo o mundo digital tem transformado as experiências infantis e quais caminhos ainda podem ser adotados para protegê-las. A discussão fundamenta-se em uma abordagem teórica e bibliográfica, considerando contribuições da psicologia, da neurociência, da educação e da saúde infantil. Busca-se, portanto, compreender que proteger a infância na era digital não significa excluir a tecnologia da vida das crianças, mas promover equilíbrio, fortalecer vínculos familiares, estabelecer limites consistentes e preservar experiências reais indispensáveis ao desenvolvimento saudável.
Como o mundo digital está mudando a infância — e o que ainda podemos fazer para protegê-la.
Ainda é cedo em uma manhã de domingo. Na ponta dos pés, Camilinha entra no quarto dos pais e, com cuidado para não acordá-los, toca de leve o ombro do pai. O pedido é simples: "Pai, me empresta o celular para jogar?" Não muito longe dali, Davi fica irritado ao perceber que, na sala de espera do pediatra, já se passaram 8 minutos do horário agendado da consulta e pergunta à mãe, com certa impaciência, quanto tempo mais ficarão ali. As refeições, na casa de Luiz, são silenciosas: papai no seu celular, mamãe mandando uma mensagem de voz para a amiga, e ele finalmente assistindo seus vídeos preferidos. Já Laurinha insiste com seus pais que precisa urgentemente de mais peças de Lego, porque, segundo ela, “com as que eu tenho, não dá nem para brincar”. Aliás, ela tem muitas peças! Mas, quando seus pais compram as peças e ela finalmente se senta para brincar, poucos minutos bastam para que ela perca o interesse. Inquieta, procura outra atividade que lhe pareça mais estimulante. Há alguns anos, eram os pais de Lívia que diziam: “Só mais cinco minutinhos!”, querendo ficar um pouco mais na rua com os amigos. Hoje, é ela quem repete exatamente a mesma frase – mas para assistir só mais um vídeo, sentada no sofá, com os olhos fixos em uma sequência interminável de histórias curtas e altamente estimulantes.
Pode ser que, ao imaginar algumas destas situações, você tenha pensado: “Meu filho (a) faz isso, e agora?”. Porém, nenhuma delas, isoladamente, significa que haja necessariamente um problema. Afinal, nossos filhos já nasceram em uma era digital na qual, se não em casa, na escola, com os amigos e mesmo na igreja eles já observam a maioria das crianças fazendo uso de celular, smartwatch, tablets, falando sobre vídeos, joguinhos e canais, participando de redes sociais e tendo informações rápidas e instantâneas literalmente na palma da mão. O que merece nossa atenção é quando essas cenas deixam de ser ocasionais e passam a fazer parte da rotina, ocupando o espaço de experiências que toda criança precisa viver para se desenvolver de forma saudável: brincar livremente, movimentar o corpo, conviver com outras crianças, explorar o ambiente, saber esperar e tolerar, criar e imaginar (AAP, 2026; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).
Mudanças nas experiências da infância
Vamos voltar alguns anos? Provavelmente sua infância tenha sido bem diferente da do seu filho (a). Lembra das brincadeiras na rua, do pique bandeira, do jogo de queimada, onde as crianças aprendiam a ganhar, a perder, a tolerar injustiças e a expor suas próprias ideias? E das esperas no ponto de ônibus, das propagandas de televisão que faziam com que tivéssemos que pacientemente aguardar pelo horário certo do programa, da espera na rua para usar o telefone fixo quando chegasse em casa e poder finalmente perguntar se a vovó poderia vir ficar com a netinha ainda hoje, ou mesmo da fila no banco, nos correios, nas casas lotéricas, já que não havia dispositivos através dos quais, em apenas um clique, um Pix era realidade e o pagamento efetuado. Estas experiências contribuíram significativamente para o desenvolvimento de muitas de nossas habilidades sociais, intelectuais e emocionais. Aprendemos a dialogar, a abrir mão, a ter paciência, a lidar com o tédio e a receber vários nãos.
As experiências da infância mudaram ao longo das últimas décadas. Em muitas famílias, as crianças hoje têm mais acesso às telas, aos conteúdos digitais e a diferentes formas de entretenimento imediato. A tecnologia pode trazer benefícios e fazer parte da vida das crianças de maneira positiva. No entanto, quando ocupa muitos momentos do dia, pode reduzir o tempo disponível para brincar livremente, movimentar-se, conviver presencialmente, lidar com o tédio e explorar o ambiente ao seu redor (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).
O mais importante é observar o equilíbrio da rotina. Quando as telas passam a ocupar o lugar do brincar, da conversa, do movimento, da leitura, da convivência e das experiências do dia a dia, algumas oportunidades importantes para o desenvolvimento podem ser reduzidas (Haidt, 2024). Por isso, mais do que comparar a infância de antigamente com a infância atual, é preciso refletir sobre quais experiências as crianças estão vivendo e quais podem estar sendo substituídas pelo uso excessivo de telas. Veja a seguir:
Infância com experiências diversificadas
- Brincadeiras ao ar livre e inventadas pelas crianças
- Tédio visto como necessário, proporcionando descanso e criatividade às crianças
- Maior convivência presencial com irmãos, primos, amigos e vizinhos
- Aprender a lidar com negociações, regras e frustrações durante as interações sociais
- Correr, andar de bicicleta, subir em árvores, brincar na rua e em parquinhos
- Maior contato com a natureza
- Utilização de programas de TV e vídeos que sejam “filtrados” pelos pais e coerentes com seus valores
- Espera em filas de restaurantes, parques, como oportunidade de aprender a ter paciência, juntamente com o acompanhamento dos pais.
- Refeições geralmente acompanhadas de conversas entre a família
- Livros, gibis e histórias como parte do lazer
- Experiências de “nãos”, esperas, regras e frustrações, possibilitando o desenvolvimento saudável da regulação emocional
- Atividades que exigem atenção e concentração por mais tempo como quebra-cabeças, montar Lego, inventar histórias, ler gibis, escrever cartas, jogos de tabuleiro
Infância com uso excessivo de telas
- Tempo majoritariamente ocupado por conteúdos digitais.
- Qualquer momento de espera ser preenchido por uma tela
- Mais interação mediada por telas e menos convivência espontânea
- Menor interação social, menor oportunidade de aprendizagem social
- Mais tempo sentado, dentro de casa e menor nível de atividade física
- Crianças que passam dias sem brincar em ambientes naturais
- Programas de TV não supervisionados pelos pais e livremente escolhidos pelas crianças
- Uso do celular como principal estratégia para lidar com o tédio durante as esperas. A criança pode ter menos oportunidades de desenvolver paciência e tolerância à frustração.
- Refeições onde todos podem estar à mesa, mas cada um concentrado em sua tela ou todos em uma tela só, perdendo o momento de interações e conversas
- Leituras passam a ser menos atrativas por demandarem concentração e menor estímulo visual comparado ao que se vê nas telas
- Dificuldade dos pais em dizer “não”, imediatismo e o uso de telas para lidar com emoções desconfortáveis prejudicam o desenvolvimento da tolerância às frustrações
- Vídeos curtos podem favorecer a atenção alternada em vez da atenção sustentada (que exige maior concentração)
Em algumas famílias, a tecnologia deixou de ser apenas um recurso para entreter ou facilitar algumas tarefas, e passou a ocupar um espaço cada vez maior na forma como as crianças brincam, aprendem, esperam, lidam com frustrações e se relacionam com o mundo. E é justamente essa mudança que tem despertado a atenção de pesquisadores de diferentes áreas da saúde e do desenvolvimento infantil (AAP, 2026; Haidt, 2024; Young e Abreu, 2019).
Como funciona o cérebro infantil?
O cérebro infantil está em intensa construção. Desde os primeiros anos de vida até o fim da adolescência, bilhões de conexões entre os neurônios são formadas e fortalecidas a partir das experiências que a criança vive todos os dias. Isso significa que o cérebro aprende e se adapta ao ambiente em que está inserido: quanto mais uma habilidade é praticada, mais eficiente ela se torna. Nessa fase de grande plasticidade cerebral, as vivências do dia a dia moldam a forma como a criança aprende, pensa, sente e se relaciona, influenciando diretamente sua capacidade de atenção, autocontrole, criatividade e regulação emocional ao longo da vida (Siegel, 2020; Siegel e Bryson, 2012).
A exposição excessiva a telas pode fazer com que o cérebro infantil receba menos estímulos relacionados ao brincar, ao movimento, à interação social e à exploração do ambiente — experiências importantes para o desenvolvimento. Imagine um cérebro que está aprendendo como o mundo funciona. Todos os dias, ele recebe milhares de experiências e, a partir delas, fortalece as conexões que mais utiliza. Se esse cérebro passa grande parte do tempo diante de conteúdos rápidos, coloridos e altamente estimulantes, ele aprende a esperar recompensas imediatas, mudanças constantes e novidades o tempo todo. O problema é que a vida real funciona em outro ritmo. Aprender a ler, fazer amigos, resolver conflitos, estudar, tocar um instrumento ou praticar um esporte exige tempo, repetição e paciência. É justamente esse desencontro entre o ritmo das telas e o ritmo da vida que preocupa tantos pesquisadores atualmente (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Young e Abreu, 2019).
O que a hiperconectividade tem a ver com isso?
Vamos, primeiro, definir hiperconectividade? Usamos esse termo não somente para o excesso de uso de telas medido em horas, mas também para indicar como as telas passam a fazer parte da organização da vida de uma pessoa. Por exemplo, entre adultos e adolescentes, que já possuem redes sociais, mesmo em momentos nos quais não estejam com o celular na mão, podem estar mentalmente conectados com aquilo que acontece “lá dentro”. Preocupações com curtidas ou não curtidas, ansiedade por não estarem acompanhando o andamento de um jogo que continua acontecendo mesmo quando desligam o aparelho, atitudes que se baseiam em comparações do que veem acerca de outras pessoas, são formas de permanecerem conectados no virtual e possivelmente desconectados da vida real, por mais que estejam de “corpo presente”.
Muitas crianças já possuem redes sociais, já participam de jogos persistentes (aqueles que continuam mesmo quando estamos offline) e já experimentam essa conexão permanente com o mundo virtual. Mas, mesmo crianças que ainda não participam desta realidade, podem sofrer com o excesso da utilização de telas como principal forma de brincar, se distrair, aprender, lidar com o tédio, acalmar emoções e esperar. O digital deixa de ser uma atividade entre várias, e passa a organizar grande parte das experiências do dia (Abreu et al., 2020; Haidt, 2024).
Para exemplificar, vamos imaginar duas crianças que usam 2 horas de telas por dia. A primeira brinca algumas horas ao ar livre, lê, conversa durante as refeições, pratica esportes, ajuda em casa, e usa duas horas de tela. A segunda acorda e liga a TV, usa o celular enquanto espera, almoça vendo vídeos, conversa com seus amigos através do celular e joga no final do dia enquanto seus pais descansam. As duas podem ter usado o mesmo tempo de tela, mas a segunda vive uma infância muito mais organizada em torno das telas, como se, sem elas, nada fizesse sentido.
O tempo excessivo diante das telas frequentemente substitui experiências fundamentais para o desenvolvimento infantil. Quando crianças brincam livremente, sozinhas ou com outras crianças, estão aprendendo a conviver. Quando participam da rotina da casa, as crianças desenvolvem senso de responsabilidade, pertencimento e cooperação. Elas aprendem que fazem parte de uma família e que suas atividades também influenciam o bem-estar das outras pessoas. Praticar atividades físicas evita obesidade e outras doenças, além de promover saúde física e mental. Explorar o ambiente, estudar, ler, aprender algo faz parte do desenvolvimento da criatividade, do pensamento lógico e abstrato. Atividades normais como estas começam a parecer “sem graça” e desestimulantes, e a procura novamente por algo que dê mais prazer imediato é o que acaba acontecendo (AAP, 2026; Gray, 2015; Yogman et al., 2018).
O que mais preocupa os especialistas?
Uma coisa é a preocupação de pai e mãe de que seus filhos estejam muito na tela. Outra coisa são os reais prejuízos que o excesso não somente do número de horas de telas, mas também, do quanto elas fazem parte da vida, trazem para meninos e meninas que ainda estão aprendendo a viver. Vamos conhecer alguns deles:
- Atenção fragmentada. Você já percebeu como algumas crianças parecem trocar de atividade o tempo todo? Começam um desenho e logo o abandonam. Pegam um brinquedo, mas poucos minutos depois já querem outro. Embora muitos fatores possam contribuir para esse comportamento, pesquisadores têm observado que a exposição excessiva às telas pode dificultar justamente o desenvolvimento da atenção sustentada – aquela capacidade de permanecer concentrado em uma mesma atividade por mais tempo (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Desmurget, 2021; Haidt, 2024).
- Prejuízos no sono. Algumas crianças parecem “ligadas no 220v” justamente na hora de dormir! Pedem só mais um vídeo, só mais uma fase do jogo ou demoram para conseguir pegar no sono mesmo dizendo que estão cansadas. Isso acontece porque o cérebro não consegue passar de um estado de intensa estimulação para o descanso de uma hora para outra. O uso de telas à noite, especialmente quando envolve conteúdos estimulantes ou se prolonga até perto do horário de dormir, pode atrasar o sono e prejudicar sua duração e qualidade. É durante o sono que o cérebro organiza o que aprendeu ao longo do dia, fortalece a memória, libera hormônios importantes para o crescimento e recupera as energias para aprender, brincar e regular as emoções no dia seguinte (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Haidt, 2024).
- Maior índice de desregulação emocional. Aprender a lidar com as emoções também faz parte da infância. É nas pequenas frustrações do dia a dia que a criança desenvolve autocontrole, tolerância, flexibilidade e estratégias para enfrentar situações difíceis. Quando boa parte desse tempo é ocupada pelas telas, essas oportunidades diminuem. Além disso, quando os dispositivos passam a ser usados com frequência para aliviar o tédio, acalmar o choro ou evitar emoções desagradáveis, a criança pode ter menos chances de aprender a regular suas próprias emoções. Estudos têm mostrado que existe uma associação entre o uso excessivo de telas e maiores índices de ansiedade, irritabilidade, estresse, baixa autoestima e sintomas depressivos, embora esses resultados também dependam de outros fatores como contextos familiares e características individuais (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Haidt, 2024; Siegel e Bryson, 2012).
- Redução das oportunidades de convivência. Brincar nunca foi apenas uma forma de passar o tempo. É convivendo que a criança aprende a esperar sua vez, negociar regras, resolver conflitos, pedir desculpas, perceber quando machucou alguém, consolar um amigo e descobrir que o mundo não gira apenas ao seu redor. Quando sobe em uma árvore, organiza uma brincadeira, inventa uma cabana ou joga bola com outras crianças, ela desenvolve muito mais do que habilidades motoras: aprende a viver em sociedade. Quando boa parte dessas experiências é substituída pelas telas, diminuem também as oportunidades de desenvolver comunicação, empatia, autonomia, criatividade e habilidades sociais — competências que não se aprendem assistindo, mas vivendo (Golinkoff e Hirsh-Pasek, 2016; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).
- Dificuldade de interromper o uso de telas. Você já deve ter visto alguma criança que parece nunca se cansar das telas, que promete assistir “só mais um pouquinho”, mas sempre deseja mais, ou que fica muito irritada quando chega a hora de guardar o celular. Muitos jogos, vídeos e aplicativos são desenvolvidos para prender a atenção pelo maior tempo possível, oferecendo novidades e recompensas constantes. Aos poucos, algumas crianças podem ter cada vez mais dificuldade em interromper o uso espontaneamente, preferindo as telas a outras atividades de que antes gostavam. Por isso, quando a tela começa a ocupar o lugar de outras experiências importantes da infância, é hora de rever os hábitos da família (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; APA, 2023; Haidt, 2024).
A plasticidade cerebral permite novas aprendizagens e mudanças de hábitos, embora os resultados dependam da idade, do contexto e da persistência das mudanças. Isso significa que pequenas mudanças consistentes na rotina — como veremos a seguir — podem favorecer um desenvolvimento mais saudável. Nunca é tarde para ajudar uma criança a construir novas experiências e, consequentemente, novas conexões cerebrais (Siegel, 2020).
Qual é o papel da família?
Depois de ler tudo isso, alguns pais podem pensar: "Então, preciso tirar todas as telas do meu filho?" A resposta é mais simples — e, ao mesmo tempo, mais profunda — do que parece.
A ciência tem mostrado, de forma bastante consistente, que o maior fator de proteção para o desenvolvimento infantil não é uma casa sem tecnologia, mas uma infância com vínculos fortes. Às vezes imaginamos que fortalecer os vínculos exige grandes passeios, viagens ou muito tempo disponível. Mas não é isso que as pesquisas mostram. Uma conversa durante o jantar, uma história antes de dormir, preparar um bolo juntos, observar um passarinho na janela, responder às perguntas curiosas das crianças ou simplesmente olhar com atenção para um desenho que elas fizeram são experiências aparentemente pequenas, mas que fortalecem a linguagem, a atenção, a memória, a empatia e a segurança emocional. São momentos simples que nenhuma tecnologia consegue substituir.
Da mesma forma, aprender a controlar as próprias emoções é um processo demorado. Nenhuma criança nasce sabendo esperar quando está frustrada, respirar fundo quando sente raiva ou colocar em palavras aquilo que está acontecendo dentro dela. Antes de conseguir fazer tudo isso sozinha, ela precisa viver inúmeras vezes essa experiência ao lado de um adulto que a ajude a se reorganizar. Quando um pai acolhe o choro sem desespero, diz "eu sei que você ficou bravo" ou simplesmente permanece por perto até que a criança consiga se acalmar, a calma do adulto vai se tornando a calma da própria criança. É assim que nasce a autorregulação emocional. Usar sempre o celular como forma de regular as emoções pode resultar em inabilidades emocionais e possíveis sofrimentos.
Também vale lembrar que nem toda brincadeira precisa de um adulto dizendo o que fazer. Quando uma criança inventa uma cabana com lençóis, transforma uma caixa de papelão em foguete ou passa um bom tempo criando uma cidade com blocos de montar, seu cérebro está fazendo um grande trabalho. Ela imagina, toma decisões, resolve problemas, muda os planos quando algo não dá certo e cria soluções que ninguém lhe ensinou. Em um mundo em que quase tudo já vem pronto — inclusive muitos brinquedos e conteúdos digitais —, preservar momentos de brincadeira livre é oferecer ao cérebro a oportunidade de criar, e não apenas receber algo pronto.
Talvez esse seja o maior desafio da nossa geração: não apenas administrar o tempo de tela dos filhos, mas equilibrar autoridade, autonomia e afeto. Precisamos supervisionar celulares, tablets e videogames, mas nossos filhos também precisam sentir que nós estamos verdadeiramente presentes. Porque, no fim das contas, é a qualidade das relações familiares que continuará sendo o alicerce mais importante para um desenvolvimento saudável (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Haidt, 2024; Siegel, 2020).
Caminhos possíveis para uma infância saudável
Reuni, aqui, as principais orientações que pesquisas científicas e a minha própria experiência clínica mostram ser caminhos possíveis para uma infância saudável sem deixar de lado a tecnologia. Vamos falar sobre como podemos fortalecer a infância, organizar o uso de telas e promover o desenvolvimento emocional. Vale lembrar que nenhuma criança desenvolve bons hábitos sozinha. A família precisa estar junto, oferecer oportunidades e viver de acordo com aquilo que diz. Mais importante do que palavras é aquilo que as crianças verão em nós. Vamos lá?
Fortaleça a infância
- Seja o exemplo. Deseja que seu filho fique menos tempo nas telas? Fique também. Deseja que interaja mais com amigos? Reflita sobre como tem sido sua vida social. Sabe que a criança precisa se exercitar e ter contato com a natureza e vive falando isso para ela? Saia, caminhe, pegue um sol. Seja o exemplo daquilo que deseja ver em seu filho (Siegel, 2020).
- Adie smartphones. Vale a pena adiar a entrega do primeiro smartphone. Não porque a tecnologia seja uma inimiga, mas porque a infância é um período único para desenvolver habilidades que nenhuma tela é capaz de ensinar. Se for necessário, um celular básico para contato pode ser uma forma de se comunicar sem permitir acesso à internet, redes sociais e jogos sem supervisão. Brincar, criar, conversar, explorar o ambiente, aprender a lidar com o tédio e conviver com outras pessoas são experiências que constroem a base do desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Quanto mais tempo a criança puder viver essa infância antes de ter acesso irrestrito ao mundo digital, maiores serão as oportunidades de crescer com mais equilíbrio (AAP, 2026; Haidt, 2024).
- Priorize brincadeiras. Incentive e participe de brincadeiras. Ensine a ele jogos legais de antigamente como STOP, pique-bandeira, jogo da velha, queimada, batata quente, cabo de guerra, corrida de saco, elástico, pular corda. Estimule brincadeiras de criatividade como cabana com lençóis, caça ao tesouro, construções com lego ou sucata. Incentive fazer desenhos, desenhe junto. Relembre amarelinha, peteca, aviãozinho de papel. Tudo isso colaborará não somente para o desenvolvimento físico e mental da criança, mas para o fortalecimento de vínculos (Golinkoff e Hirsh-Pasek, 2016; Gray, 2015; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).
- Preserve o sono. Estipule uma rotina para a hora de dormir. Procure interromper as telas pelo menos uma hora antes de dormir; em algumas famílias, um intervalo maior pode funcionar melhor. Mantenha celulares fora do quarto e, após um banho gostoso, utilize esse tempo antes de dormir para estar com seu filho. Deite-se com ele, conte uma história ou conversem um pouco, façam uma oração. É momento de calma e aconchego (Abreu et al., 2020; Haidt, 2024).
- Proporcione contato com a natureza. Isso pode favorecer o bem-estar, a atividade física e a curiosidade! Façam um piquenique, observem os pássaros, plantem uma horta, procurem insetos com uma lupa, caminhem em trilhas. Crianças gostam de procurar folhas e sementes diferentes, andar de bicicleta em um parque da cidade ou mesmo construir um barquinho de papel e colocá-lo na água. São coisas simples e que as colocam em contato com a natureza (AAP, 2026; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).
- Crie rituais familiares. Rituais familiares são pequenos momentos vividos regularmente em família que fortalecem os vínculos, criam memórias afetivas e transmitem segurança às crianças. Uma refeição sem celulares, uma história antes de dormir, o culto em família, jogos de tabuleiro no final de semana, conversas durante o caminho da escola são momentos que marcam e lembram aos filhos que existe um lugar onde eles sempre serão amados e acolhidos. As telas deixam de ser a principal fonte de prazer e conexão (Haidt, 2024; Siegel, 2020).
Organize o uso das telas
- Estabeleça limites claros para o uso de telas. Crianças precisam de limites para se sentirem seguras. Defina quando as telas podem ser usadas e quando não podem. Quando essas regras mudam todos os dias ou dependem do humor dos pais, a tendência é que as negociações e os conflitos aumentem. Limites claros diminuem discussões e ajudam a criança a compreender que a tecnologia faz parte da vida, mas não organiza toda a rotina da família (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; APA, 2023; Haidt, 2024; Young e Abreu, 2019).
- Evite transformar as telas na principal recompensa ou castigo. É comum ouvirmos frases como: “Se você se comportar, ganha o celular”, ou “Se não obedecer, vou tirar o videogame”. Embora isso funcione em alguns momentos, pode fazer com que a criança passe a enxergar as telas como o maior prêmio da vida. Quando possível, prefira consequências relacionadas ao comportamento e preserve outras formas de motivação. O melhor é que elas ocupem o lugar que realmente têm: uma forma de entretenimento entre tantas outras experiências importantes da infância (Desmurget, 2021).
- Conheça o mundo digital de seu filho. Mais importante do que perguntar quanto tempo ele passou na tela, é saber o que ele está fazendo nela. Quais jogos gosta? Quais vídeos assiste? Quem são as pessoas com quem conversa? Demonstrar interesse pelo universo digital da criança fortalece o vínculo e permite conversas e orientações importantes (Abreu et al., 2020; APA, 2023).
- Prefira telas compartilhadas. Sempre que possível, prefira que o uso das telas aconteça em ambientes comuns da casa e aumente a autonomia gradualmente, conforme a idade, a maturidade e a capacidade de supervisão. Isso facilita conversas sobre o conteúdo e reduz o uso automático e prolongado (AAP, 2026; APA, 2023; Haidt, 2024).
Promova o desenvolvimento emocional
- Ensine autorregulação emocional. Importante ensinar às crianças como podem lidar com emoções corriqueiras como ficarem com raiva, tristes, irritadas, entediadas, ansiosas. Essas emoções farão parte da vida toda delas, como fazem da nossa. Cuidar das emoções não significa deixar de senti-las, mas aprender, aos poucos, a reconhecer o que sente e encontrar maneiras saudáveis de lidar com elas. É difícil para uma criança aprender a se acalmar sozinha. Ajude-a perguntando: “você está chateada?”, “alguma coisa aconteceu?” e deixe-a falar. Ouça primeiro, em vez de logo orientar ou “dar a bronca”. Para que ela aprenda a se acalmar, você pode ensiná-la a respirar fundo, fazer uma pausa, perguntar se quer companhia, conversar sobre o que aconteceu. Assim, ela vai aprendendo que a emoção vem, a gente sente, e ela passa, sem que necessariamente precise usar o celular ou outras telas para fugir das emoções (Abreu et al., 2020; Siegel, 2020; Siegel e Bryson, 2012; Young e Abreu, 2019).
- Permita que pequenas frustrações aconteçam. Crianças precisam aprender a lidar com frustrações e nós podemos ajudá-las a desenvolver a capacidade de tolerar desconfortos permitindo que pequenas situações de desconforto aconteçam. Se os pais estão conversando com os avós, as crianças podem esperar a vez de falar, em vez dos adultos automaticamente cederem a vez para a criança numa ideia de que “ela não consegue esperar”. Isso não significa ser sempre inflexível com os filhos, mas, em alguns momentos permitir que, para o crescimento deles, aprendam que podem se frustrar, sentir desconforto e perceber que ele passa (Gray, 2015; Siegel e Bryson, 2012).
- Treine espera. Hoje, quase tudo é imediato. Por isso, esperar virou treino importante. Quando estiver em fila para entrar no restaurante ou no parque, ajude as crianças a esperar sem necessariamente ganharem o celular. Podem conversar, desenhar, jogar um jogo da velha, ou simplesmente esperar. Ajude-as a esperar, permanecendo junto delas. Você pode até contar sobre como, às vezes, também é difícil para você esperar (AAP, 2026; Haidt, 2024).
- Não resgate rápido demais. Um erro comum dos adultos é tentar eliminar rapidamente todo desconforto que os filhos enfrentam. Conheço pais que fazem tarefas da escola quando os filhos estão cansados. Em vez de resolver imediatamente, experimente ficar ao lado do seu filho neste momento e sustentar um pouquinho mais o desconforto juntos. Você pode dizer algo como: “Eu sei que isso é chato ou difícil, mas vamos pensar juntos no que pode ser feito?”. Aprender a permanecer diante de emoções desconfortáveis é uma habilidade essencial para a construção da autonomia e da maturidade emocional (Gray, 2015; Siegel e Bryson, 2012).
- Permita que conversas difíceis aconteçam. Faz parte do desenvolvimento da maturidade infantil aprender a reconhecer seus erros, a pedir desculpas, a reparar danos e a perdoar também. Por isso, desobedeceram? Falaram de uma forma inadequada? É necessário pontuar o erro: “Não foi legal o que você fez e eu não gostaria que isso se repetisse. Em vez de fazer assim, vamos pensar em como pode fazer da próxima vez?”, “Gostaria que pedisse desculpas”. Lembrando que pais também devem pedir desculpas e que falar sobre o erro não significa rotular a criança como sendo um erro: “Você só faz besteira!”, “Você nunca aprende!”, “Você é chorão!” (Siegel, 2020; Siegel e Bryson, 2012).
- Ensine responsabilidades. Crianças que aprendem a ajudar em casa e a ter pequenas responsabilidades entendem que fazem parte da família e que suas atitudes têm importância. Por isso, é necessário que aprendam a ter pequenos compromissos como cuidar dos seus pertences, ajudar nas atividades da casa, cuidar de um animal, ser responsável com suas tarefas escolares (Haidt, 2024; Siegel, 2020).
- Ensine que o tédio não é um problema. Nem sempre é nossa função entreter os filhos. O tédio faz parte da infância e, muitas vezes, é justamente ele que dá espaço para a criatividade e resolução de problemas. Resista à tentação de oferecer imediatamente uma tela quando a criança disser “não tenho nada para fazer”. Isso é um presente para o próprio desenvolvimento dela. Confie na capacidade dela de encontrar formas de brincar, criar, explorar o ambiente ou simplesmente descansar e pensar na vida (Abreu et al., 2020; Haidt, 2024; Young e Abreu, 2019).
- Valide emoções. Crianças, assim como nós, vão errar, falhar, decepcionar e demonstrar para nós suas “fraquezas”. Às vezes podemos pensar que lidar com as emoções das crianças seja um verdadeiro castigo! No entanto, apesar de ser um desafio, é uma grande oportunidade de ensinarmos a elas o valor de si mesmas como pessoas. Se quando elas se mostram irritadas, cansadas, tristes, raivosas, as mandamos para longe e invalidamos o que sentem: “Não é pra tanto!”, “Deixa de mimimi!”, “Parece um bebezinho!”, o que farão consigo mesmas quando estiverem precisando de um “colo”? Provavelmente a mesma coisa. Precisamos ensiná-las a cuidarem de si mesmas, a se acolherem e a tratarem seus sentimentos com respeito e cuidado para que cresçam como crianças emocionalmente seguras e resilientes, promovendo, assim, saúde emocional e prevenindo dificuldades emocionais. “Você ficou frustrado. Isso acontece mesmo. Quer conversar? Respira... isso vai passar” (Siegel, 2020; Siegel e Bryson. 2012).
Que possamos, como pais, professores e cuidadores, ser uma poderosa ferramenta que proporcione equilíbrio na saúde física, mental, social e espiritual de nossas crianças.
“Os pais são os primeiros mestres dos filhos. Devem compreender que sobre eles repousa a mais importante responsabilidade que lhes pode ser confiada. A educação dos filhos deve ser considerada como uma das mais importantes obras da vida.” (Ellen G. White, Ciência do Bom Viver, p. 358).
Considerações finais
Este artigo teve como objetivo refletir sobre os impactos da presença crescente das tecnologias digitais na infância contemporânea, especialmente no que se refere ao desenvolvimento cognitivo, emocional, social e familiar das crianças. A partir da discussão apresentada, observa-se que o uso excessivo e desregulado das telas pode interferir em experiências fundamentais ao desenvolvimento infantil, como o brincar livre, a convivência presencial, o contato com a natureza, a espera, a criatividade, a atenção sustentada e a tolerância às frustrações.
Conclui-se que proteger a infância na era digital não significa excluir a tecnologia da vida das crianças, mas estabelecer uma relação equilibrada com os recursos digitais. Para isso, torna-se essencial que famílias, educadores e cuidadores promovam limites claros, presença afetiva, vínculos seguros e oportunidades reais de desenvolvimento. A tecnologia pode fazer parte da rotina infantil, desde que não ocupe o lugar de experiências indispensáveis para a formação integral da criança.
Dessa forma, o estudo contribui para ampliar a reflexão sobre a responsabilidade dos adultos diante das transformações produzidas pelo mundo digital, reforçando a importância de práticas familiares e educativas que valorizem o tempo de qualidade, o brincar, a escuta, a autorregulação emocional e a convivência. Recomenda-se, ainda, que novas discussões e pesquisas aprofundem os efeitos da hiperconectividade na infância, considerando diferentes contextos
Sobre a autoria
Thais Seidiel de Souza Marques
- Psicóloga Clínica – CRP 06/91343
- Especialista em Aconselhamento Familiar - UNASP
- Especialista em Terapia Sistêmica Familiar – PUC – SP
- Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental – PUC – RS
- Colunista mensal da Rev. Vida e Saúde e da Rev. Nosso amiguinho
Referências
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