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Grupo de crianças e adolescentes sentados juntos usando smartphones.

Artigo 04

Que infância é essa?

Como o mundo digital está transformando a infância e quais caminhos ainda podem ser adotados para protegê-la

Thais Seidiel de Souza MarquesPsicóloga Clínica - CRP 06/91343

13 min de leitura

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Proteger a infância na era digital não significa afastar as crianças da tecnologia, mas aproximá-las novamente da vida: do brincar, da espera, dos vínculos, da natureza e das experiências que formam um cérebro saudável e um coração seguro.

Ainda é cedo em uma manhã de domingo. Camilinha entra devagar no quarto dos pais e toca de leve o ombro do pai. O pedido é simples: “Pai, me empresta o celular para jogar?”. Na sala de espera do pediatra, Davi reclama porque já esperou oito minutos e, inquieto, pergunta à mãe quanto tempo mais ficarão ali. Na casa de Luiz, cada um faz sua refeição olhando para sua própria tela. Há alguns anos, eram os pais de Lívia que diziam: “Só mais cinco minutinhos!”, querendo ficar um pouco mais na rua com os amigos. Hoje, é ela quem repete exatamente a mesma frase — mas para assistir só mais um vídeo, sentada no sofá, com os olhos fixos em uma sequência interminável de histórias curtas e altamente estimulantes.

Pode ser que, ao imaginar algumas dessas situações, você tenha pensado: “Meu filho faz isso, e agora?”. Porém, nenhuma delas, isoladamente, significa que haja necessariamente um problema. O que merece nossa atenção é quando essas cenas deixam de ser ocasionais e passam a fazer parte da rotina, ocupando o espaço de experiências que toda criança precisa viver para se desenvolver de forma saudável: brincar livremente, movimentar o corpo, conviver com outras crianças, explorar o ambiente, saber esperar e tolerar, criar e imaginar (AAP, 2026; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).

Mudanças nas experiências da infância

As experiências da infância mudaram ao longo das últimas décadas. Em muitas famílias, as crianças hoje têm mais acesso às telas, aos conteúdos digitais e a diferentes formas de entretenimento imediato. A tecnologia pode trazer benefícios e fazer parte da vida das crianças de maneira positiva. No entanto, quando ocupa muitos momentos do dia, pode reduzir o tempo disponível para brincar livremente, movimentar-se, conviver presencialmente, lidar com o tédio e explorar o ambiente ao seu redor (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).

Infância com experiências diversificadas

  1. Brincadeiras ao ar livre e inventadas pelas crianças
  2. Tédio visto como necessário, proporcionando descanso e criatividade às crianças
  3. Maior convivência presencial com irmãos, primos, amigos e vizinhos
  4. Aprender a lidar com negociações, regras e frustrações durante as interações sociais
  5. Correr, andar de bicicleta, subir em árvores, brincar na rua e em parquinhos
  6. Maior contato com a natureza
  7. Uso de programas de TV e vídeos que sejam “filtrados” pelos pais e coerentes com seus valores
  8. Espera em filas de restaurantes, parques, como oportunidade de aprender a ter paciência, juntamente com o acompanhamento dos pais
  9. Refeições geralmente acompanhadas de conversas entre a família
  10. Livros, gibis e histórias como parte do lazer
  11. Experiências de “nãos”, esperas, regras e frustrações, possibilitando o desenvolvimento saudável da regulação emocional
  12. Atividades que exigem atenção e concentração por mais tempo como quebra-cabeças, montar Lego, inventar histórias, ler gibis, escrever cartas, jogos de tabuleiro

Infância com uso excessivo de telas

  1. Tempo majoritariamente ocupado por conteúdos digitais
  2. Qualquer momento de espera ser preenchido por uma tela
  3. Mais interação mediada por telas e menos convivência espontânea
  4. Menor interação social, menor oportunidade de aprendizagem social
  5. Mais tempo sentado, dentro de casa e menor nível de atividade física
  6. Crianças que passam dias sem brincar em ambientes naturais
  7. Programas de TV não supervisionados pelos pais e livremente escolhidos pelas crianças
  8. Uso do celular como principal estratégia para lidar com o tédio durante as esperas. A criança pode ter menos oportunidades de desenvolver paciência e tolerância à frustração
  9. Refeições onde todos podem estar à mesa, mas cada um concentrado em sua tela ou todos em uma tela só, perdendo o momento de interações e conversas
  10. Leituras passam a ser menos atrativas por demandarem concentração e menor estímulo visual comparado ao que se vê nas telas
  11. Dificuldade dos pais em dizer “não”, imediatismo e o uso de telas para lidar com emoções desconfortáveis prejudicam o desenvolvimento da tolerância às frustrações
  12. Vídeos curtos podem favorecer a atenção alternada em vez da atenção sustentada (que exige maior concentração)

Em algumas famílias, a tecnologia deixou de ser apenas um recurso para entreter ou facilitar algumas tarefas e passou a ocupar um espaço cada vez maior na forma como as crianças brincam, aprendem, esperam, lidam com frustrações e se relacionam com o mundo. É justamente essa mudança que tem despertado a atenção de pesquisadores de diferentes áreas da saúde e do desenvolvimento infantil (AAP, 2026; Haidt, 2024; Young e Abreu 2019).

O que a hiperconectividade tem a ver com isso?

Usamos o termo hiperconectividade não somente para falar de um excesso de uso de telas determinado pelo número de horas, mas também para indicar quanto as telas passam a fazer parte da organização da vida de uma pessoa. Mesmo crianças que ainda não participam de redes sociais ou de jogos persistentes podem sofrer com o excesso da utilização de telas como principal forma de brincar, distrair-se, aprender, lidar com o tédio, acalmar emoções e esperar. O digital deixa de ser uma atividade entre várias e passa a organizar grande parte das experiências do dia (Abreu et al., 2020; Haidt, 2024). Duas crianças podem usar duas horas de telas por dia e ter experiências muito diferentes. Enquanto uma brinca, lê, conversa, pratica esportes e ajuda em casa, a outra organiza grande parte do dia em torno das telas. O tempo excessivo diante delas pode substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento infantil, como brincar livremente, conviver, participar da rotina da casa, explorar o ambiente, estudar e ler. O que importa, portanto, não é somente o número de horas de tela, mas o lugar que as telas ocupam na organização da vida da criança.

O que mais preocupa os especialistas?

  1. Atenção fragmentada. Você já percebeu como algumas crianças parecem trocar de atividade o tempo todo? Começam um desenho e logo o abandonam. Pegam um brinquedo, mas poucos minutos depois já querem outro. Embora muitos fatores possam contribuir para esse comportamento, pesquisadores têm observado que a exposição excessiva às telas pode dificultar o desenvolvimento da atenção sustentada — aquela capacidade de permanecer concentrado em uma mesma atividade por mais tempo (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Desmurget, 2021; Haidt, 2024).
  2. Prejuízos no sono. Algumas crianças parecem “ligadas no 220” justamente na hora de dormir. Pedem só mais um vídeo, só mais uma fase do jogo ou demoram para conseguir pegar no sono mesmo dizendo que estão cansadas. O uso de telas à noite, especialmente quando envolve conteúdos estimulantes ou se prolonga até perto do horário de dormir, pode atrasar o sono e prejudicar sua duração e qualidade. É durante o sono que o cérebro organiza o que aprendeu ao longo do dia, fortalece a memória, libera hormônios importantes para o crescimento e recupera as energias para aprender, brincar e regular as emoções no dia seguinte (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Haidt, 2024).
  3. Maior índice de desregulação emocional. É nas pequenas frustrações do dia a dia que a criança desenvolve autocontrole, tolerância, flexibilidade e estratégias para enfrentar situações difíceis. Quando boa parte desse tempo é ocupada pelas telas, essas oportunidades diminuem. Além disso, quando os dispositivos passam a ser usados com frequência para aliviar o tédio, acalmar o choro ou evitar emoções desagradáveis, a criança pode ter menos chances de aprender a regular suas próprias emoções. Estudos têm mostrado uma associação entre o uso excessivo de telas e maiores índices de ansiedade, irritabilidade, estresse, baixa autoestima e sintomas depressivos, embora esses resultados também dependam de outros fatores, como contextos familiares e características individuais (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Haidt, 2024; Siegel e Bryson, 2012).
  4. Redução das oportunidades de convivência. Brincar nunca foi apenas uma forma de passar o tempo. É convivendo que a criança aprende a esperar sua vez, negociar regras, resolver conflitos, pedir desculpas, perceber quando machucou alguém, consolar um amigo e descobrir que o mundo não gira apenas ao seu redor. Quando boa parte dessas experiências é substituída pelas telas, diminuem também as oportunidades de desenvolver comunicação, empatia, autonomia, criatividade e habilidades sociais — competências que não se aprendem assistindo, mas vivendo (Golinkoff e Hirsh-Pasek, 2016; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).
  5. Dificuldade de interromper o uso de telas. Algumas crianças podem ter cada vez mais dificuldade em interromper o uso espontaneamente, preferindo as telas a outras atividades de que antes gostavam. Muitos jogos, vídeos e aplicativos são desenvolvidos para prender a atenção pelo maior tempo possível, oferecendo novidades e recompensas constantes (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; APA, 2023; Haidt, 2024). Por isso, quando a tela começa a ocupar o lugar de outras experiências importantes da infância, é hora de rever os hábitos da família. Pequenas mudanças consistentes na rotina podem favorecer um desenvolvimento mais saudável (Siegel, 2020).

Qual é o papel da família?

A ciência tem mostrado, de forma bastante consistente, que o maior fator de proteção para o desenvolvimento infantil não é uma casa sem tecnologia, mas uma infância com vínculos fortes. Uma conversa durante o jantar, uma história antes de dormir, preparar um bolo juntos, observar um passarinho na janela, responder às perguntas curiosas das crianças ou simplesmente olhar com atenção para um desenho que elas fizeram são experiências aparentemente pequenas, mas que fortalecem a linguagem, a atenção, a memória, a empatia e a segurança emocional. São momentos simples que nenhuma tecnologia consegue substituir. Talvez esse seja o maior desafio da nossa geração: não apenas administrar o tempo de tela dos filhos, mas equilibrar autoridade, autonomia e afeto. Precisamos supervisionar celulares, tablets e videogames, mas nossos filhos também precisam sentir que nós estamos verdadeiramente presentes. Porque, no fim das contas, é a qualidade das relações familiares que continuará sendo o alicerce mais importante para um desenvolvimento saudável (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; Haidt, 2024; Siegel, 2020).

Caminhos possíveis para uma infância saudável

Fortaleça a infância

  1. Seja o exemplo. As crianças aprendem muito mais pelo que observam do que pelo que ouvem. A relação delas com as telas, com as pessoas e com a vida começa pela nossa (Siegel, 2020).
  2. Adie smartphones. Sempre que possível, preserve a infância antes do acesso irrestrito ao mundo digital. Quanto mais tempo para brincar, criar, explorar e conviver, maiores serão as oportunidades de um desenvolvimento equilibrado AAP, 2026; Haidt, 2024).
  3. Priorize brincadeiras. Brinque junto. Resgate jogos, incentive brincadeiras ao ar livre, desenhos, faz de conta, construções com Lego ou sucata. Brincar continua sendo uma das formas mais importantes de aprender (Golinkoff e Hirrsh-Pasek, 2016; Gray, 2015; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).
  4. Preserve o sono. Evite telas antes de dormir. Aproveite esse momento para conversar, contar uma história, fazer uma oração ou simplesmente estar junto (Abreu et al., 2020; Haidt, 2024).
  5. Proporcione contato com a natureza. Parques, trilhas, piqueniques, hortas e brincadeiras ao ar livre podem favorecer o bem-estar, a atividade física e a curiosidade (AAP, 2026; Haidt, 2024; Yogman et al., 2018).
  6. Crie rituais familiares. Uma refeição sem celulares, uma história antes de dormir, o culto em família ou conversas durante o caminho da escola fortalecem vínculos e criam memórias que acompanham os filhos por toda a vida (Haidt, 2024; Siegel, 2020).

Organize o uso das telas

  1. Estabeleça limites claros. Defina horários e momentos para o uso das telas. Limites consistentes diminuem conflitos e ajudam a criança a compreender que a tecnologia faz parte da vida, mas não precisa organizar toda a rotina (AAP, 2026; Abreu et al., 2020; APA, 2023; Haidt, 2024; Young e Abreu, 2019).
  2. Evite transformar as telas na principal recompensa ou castigo. As telas são apenas uma forma de entretenimento entre tantas outras experiências importantes da infância (Desmurget, 2021).
  3. Conheça o mundo digital do seu filho. Mais importante do que perguntar quanto tempo ele ficou na tela é saber o que ele está fazendo nela. Demonstre interesse pelos jogos, vídeos e conteúdos que fazem parte da rotina dele (Abreu et al., 2020; APA, 2023).
  4. Prefira telas compartilhadas. Sempre que possível, mantenha celulares, tablets e computadores em ambientes comuns da casa. Isso facilita a supervisão e cria oportunidades para conversar sobre o que a criança consome (AAP, 2026; APA, 2023; Haidt, 2024).

Promova o desenvolvimento emocional

  1. Ensine autorregulação emocional. Ajude seu filho a reconhecer o que sente e a encontrar formas saudáveis de lidar com as emoções. Antes de aprender a se acalmar sozinho, ele precisa viver essa experiência ao lado de um adulto (Abreu et al.; 2020; Siegel, 2020; Siegel e Bryson, 2012; Young e Abreu, 2019)
  2. Permita pequenas frustrações. Esperar, ouvir um “não”, perder um jogo e enfrentar pequenos desafios faz parte do desenvolvimento emocional. Não tente eliminar todo desconforto da infância (Gray, 2015; Siegel e Bryson, 2012)
  3. Treine a espera. Nem toda fila ou momento de tédio precisa ser preenchido por uma tela. Esperar também é uma habilidade que se aprende (AAP, 2026; Haidt, 2024).
  4. Não resgate rápido demais. Nem sempre é preciso resolver imediatamente os problemas da criança. Muitas vezes, ela precisa apenas de um adulto que permaneça ao seu lado enquanto aprende a enfrentá-los (Gray, 2015; Siegel e Bryson, 2012).
  5. Permita conversas difíceis. Ensine seu filho a reconhecer erros, pedir desculpas, reparar o que fez e aprender com as consequências, sem humilhações ou rótulos (Siegel, 2020; Siegel e Bryson, 2012).
  6. Ensine responsabilidades. Participar da rotina da casa, cuidar dos próprios pertences e assumir pequenas tarefas ajuda a desenvolver autonomia, cooperação e senso de pertencimento (Haidt, 2024; Siegel, 2020).
  7. Ensine que o tédio não é um problema. Nem sempre é nossa função entreter as crianças. Muitas das melhores brincadeiras e ideias surgem justamente quando elas têm tempo para imaginar, criar e explorar (Abreu et al., 2020; Haidt, 2024; Young e Abreu, 2019).
  8. Valide as emoções. Em vez de dizer “isso não foi nada”, acolha o que a criança sente. Quando ela aprende que suas emoções podem ser compreendidas e cuidadas, desenvolve mais segurança para enfrentar os desafios da vida (SIEGEL, 2020; SIEGEL & BRYSON, 2012).

Mensagem final

Que possamos, como pais, professores e cuidadores, ser uma poderosa ferramenta que proporcione equilíbrio na saúde física, mental, social e espiritual de nossas crianças.

Referências

  • ABREU, Cristiano Nabuco et al. Como lidar com as dependências tecnológicas: guia prático para pacientes, familiares e educadores. Belo Horizonte: Hogrefe, 2020.
  • AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Digital ecosystems, children, and adolescents: policy statement. Pediatrics, 2026.
  • AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Health advisory on social media use in adolescence. 2023.
  • CENTER ON THE DEVELOPING CHILD AT HARVARD UNIVERSITY. Serve and return interaction shapes brain circuitry. 2011.
  • DESMURGET, Michel. A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças. São Paulo: Vestígio, 2021.
  • GOLINKOFF, Roberta Michnick; HIRSH-PASEK, Kathy. Becoming brilliant: what science tells us about raising successful children. Washington, DC: American Psychological Association, 2016.
  • GRAY, Peter. Livre para aprender: por que liberar o brincar tornará as crianças mais felizes, autoconfiantes e melhores estudantes para a vida. São Paulo: Fundamento, 2015.
  • HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
  • SIEGEL, Daniel J. The developing mind: how relationships and the brain interact to shape who we are. 3. ed. New York: Guilford Press, 2020.
  • SIEGEL, Daniel J.; BRYSON, Tina Payne. O cérebro da criança. São Paulo: Versos, 2012.
  • YOGMAN, Michael et al. The power of play: a pediatric role in enhancing development in young children. Pediatrics, 2018.
  • YOUNG, Kimberly S.; ABREU, Cristiano Nabuco (org.). Dependência de internet em crianças e adolescentes: fatores de risco, avaliação e tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2019.

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