
Artigo 03
Entre a conexão digital e a presença
A tecnologia na relação mãe-bebê
Guadalupy OliveiraPsicóloga Clínica – CRP 02/18045
Roselaine Vieira SônegoPsicóloga Clínica – CRP 08/38610
12 min de leitura
Resumo
Este artigo discute os efeitos da presença das tecnologias digitais na experiência contemporânea da maternidade, com ênfase na relação mãe-bebê nos primeiros momentos de vida. Considera-se que, embora a internet, os aplicativos e as redes sociais possam oferecer informação, suporte e acolhimento às mães, o uso excessivo ou pouco consciente dos dispositivos pode interferir na disponibilidade emocional, na observação sensível e na responsividade diante dos sinais do bebê. A partir de contribuições da teoria do apego, da psicanálise e de estudos recentes sobre tecnoferência, propõe-se uma reflexão sobre a importância da presença possível, da atenção compartilhada e do encontro direto entre mãe e bebê na construção dos vínculos iniciais.
Introdução
A presença das tecnologias digitais tornou-se parte constitutiva da vida contemporânea, atravessando modos de comunicação, acesso à informação, organização da rotina e construção de vínculos sociais. No campo da maternidade, esse fenômeno adquire contornos específicos, pois acompanha a mulher desde a gestação, quando aplicativos, sites, redes sociais e consultas on-line passam a oferecer explicações, orientações e formas de apoio diante das mudanças corporais, emocionais e subjetivas vividas nesse período.
Embora tais recursos possam favorecer o acesso a informações e ampliar redes de suporte, seu uso excessivo ou pouco consciente pode interferir na qualidade da presença materna, sobretudo nos primeiros momentos de vida do bebê. A relação mãe-bebê exige disponibilidade emocional, observação sensível e responsividade diante de sinais ainda pouco diferenciados, construídos no cotidiano por meio do olhar, do toque, da escuta e da atenção compartilhada. Nesse contexto, a mediação constante das telas pode deslocar parte da atenção do cuidador para referências externas, produzindo tensões entre o desejo de cuidar melhor e a experiência concreta de estar com o bebê.
O problema que orienta esta reflexão consiste em compreender de que modo a presença permanente dos dispositivos digitais pode afetar a construção dos vínculos iniciais entre mãe e bebê, especialmente quando o celular passa a ocupar o lugar de fonte de comparação, parâmetro de desempenho materno ou interrupção da interação face a face. A discussão torna-se relevante diante da centralidade das redes sociais na experiência contemporânea do puerpério e dos estudos sobre tecnoferência, que apontam para possíveis impactos do uso de dispositivos na sensibilidade e na responsividade parental.
Este artigo tem como objetivo discutir os efeitos da tecnologia digital na experiência da maternidade e na relação mãe-bebê, considerando tanto suas possibilidades de apoio quanto seus riscos para a presença relacional. Para tanto, articula contribuições da teoria do apego, da psicanálise e de pesquisas recentes sobre o uso parental de smartphones, buscando refletir sobre a importância da presença possível, da atenção compartilhada e do encontro direto na constituição dos vínculos iniciais.
Na sequência, o texto aborda a tecnologia na experiência da maternidade, a tela como referência para o exercício materno, a disponibilidade emocional diante das demandas do bebê, as interferências provocadas pelo uso do celular na interação e, por fim, pequenas escolhas cotidianas que podem proteger a presença e favorecer a construção de vínculos na primeiríssima infância.
A tecnologia na experiência da maternidade
O universo digital passou a atravessar diferentes formas de relação humana, alcançando inclusive os primeiros momentos de vida. Durante a gestação, uma mulher vivencia intensas transformações físicas e emocionais: imagina o rosto do bebê, deseja nomeá-lo, organiza sua chegada e busca compreender as mudanças que atravessam seu corpo e sua subjetividade. Nesse contexto, cabe perguntar de que modo a presença constante dos dispositivos tecnológicos pode mediar a experiência da maternidade.
Na gestação, a tecnologia pode funcionar como fonte de informação e suporte. Sites especializados, aplicativos, consultas on-line, grupos de apoio em redes sociais e conteúdos sobre desenvolvimento fetal tornam-se recursos por meio dos quais a futura mãe se aproxima da nova tarefa de cuidar. Entretanto, após o nascimento, o uso desses recursos pode adquirir outra dimensão. A depender da forma como ocorre, o uso do celular pode interferir na qualidade da presença materna e na disponibilidade para o encontro com o bebê.
Gutman (2009) compreende o nascimento não apenas como um desprendimento físico, mas como a passagem de uma relação corporal para outra forma de união, sustentada pelo vínculo emocional que continua a ser construído após o parto. Sob essa perspectiva, nascer não significa somente adquirir a condição de abrir os próprios olhos, mas também buscar um olhar que responda e reconheça.
Antes do nascimento, o bebê encontrava-se corporalmente ligado à mãe, compondo uma unidade vivida no próprio corpo materno. Após o parto, passa a existir fora desse corpo e manifesta necessidades, sinais e demandas que nem sempre encontram respostas imediatas ou claras. Nesse universo de dúvidas, a internet pode surgir como uma fonte importante de apoio. Contudo, paradoxalmente, na tentativa de cuidar melhor e encontrar respostas para aquilo que ainda não sabe, a mãe pode voltar-se cada vez mais para a tela e, em certos momentos, afastar-se da experiência concreta de estar com o bebê.
A tela como referência para a maternidade
Diante das demandas do bebê, a mãe pode buscar na internet respostas para compreender o que ele necessita. Da mesma forma, diante das incertezas sobre si mesma, pode encontrar nas redes sociais modelos sobre como deveria exercer a maternidade. Assim, entre a necessidade de compreender o bebê e a tentativa de reencontrar a si própria, a mãe pode voltar-se à tela justamente em um período no qual é convocada a construir uma nova forma de estar consigo, com o bebê e com o mundo.
Na experiência clínica com mães de bebês e mulheres no puerpério, são frequentes os relatos de sofrimento associados às comparações. Algumas mulheres descrevem acompanhar, pelas redes sociais, a rotina de outras mães e perceber uma distância entre aquilo que observam e aquilo que conseguem realizar em sua própria maternidade. Nesses casos, o celular deixa de exercer apenas uma função informativa e passa a ocupar também o lugar de parâmetro, comparação e avaliação da própria experiência.
O puerpério é marcado por profundas transformações corporais, psíquicas e relacionais. Nesse período, pode surgir o desejo de retomar parte da rotina anterior, recuperar uma sensação de normalidade e reconhecer novamente o próprio corpo após a gestação. Nessa busca, a mulher pode recorrer a referências externas para avaliar sua experiência, comparando seu ritmo ao de outras mulheres, embora o tempo da maternidade não seja igual para todas.
Essa pressa de retornar à normalidade dialoga com a lógica da velocidade característica da cultura contemporânea hiperconectada, na qual a vida cotidiana é constantemente vista, registrada e compartilhada. Em algumas situações, a hiperconexão e a imersão nas redes sociais produzem tamanho desconforto que a mulher decide desinstalar temporariamente os aplicativos, na tentativa de interromper as comparações e recuperar espaço para viver a própria experiência.
O bebê e a disponibilidade materna
As referências externas podem manter parte da atenção materna voltada para fora justamente em um período no qual o bebê demanda presença sensível e disponível. Bowlby (2024) chama atenção para a figura da “mãe sensível comum”, isto é, aquela que se sintoniza progressivamente com os ritmos do bebê e, ao observar atentamente seu comportamento, consegue identificar o que é adequado às suas necessidades e agir em resposta a elas.
Essa sintonia não se estabelece a partir de manuais ou respostas universais sobre o cuidado, mas se constrói na própria relação entre cuidador e bebê, mediante a observação dos sinais e a resposta a eles. Nesse sentido, a busca incessante por respostas externas pode produzir uma tensão: enquanto a mãe recorre à internet para descobrir o que o bebê deveria fazer, quando deveria dormir, como deveria se alimentar ou como deveria se desenvolver, corre-se o risco de que o olhar se desloque daquilo que o próprio bebê comunica.
O problema, portanto, não está na informação em si, mas quando ela passa a ocupar o lugar da observação e da experiência compartilhada, dificultando que a mãe reconheça os ritmos e as particularidades do bebê que tem diante de si. A sintonia não exige uma resposta imediata e perfeita a cada demanda, mas uma disponibilidade para observar, interpretar e responder ao bebê, ajustando-se à singularidade da relação.
Winnicott (2021) lembra que o bebê não necessita de uma mãe perfeita, mas de uma mãe suficientemente boa, capaz de adaptar-se de forma sensível às suas necessidades. Isso não significa uma mãe permanentemente disponível, que nunca se distrai, falha ou desvia o olhar; significa, antes, alguém que, nos momentos de encontro com o bebê, possa estar suficientemente presente para ele.
A internet pode oferecer respostas sobre bebês de modo geral, mas é somente na relação cotidiana com seu próprio bebê que a mãe poderá conhecê-lo em sua singularidade. É nessa relação, construída pela presença, pela observação e pela resposta aos sinais, que se estabelece o vínculo fundamental para os primeiros anos de vida e para a constituição das bases relacionais da primeiríssima infância.
É importante lembrar, contudo, que mães, pais e demais cuidadores participam da construção desse ambiente relacional. Embora este texto se detenha especialmente na experiência materna, em razão da intensidade e da continuidade da presença da mãe junto ao bebê desde o nascimento, não se desconsidera a importância dos demais cuidadores na constituição dessa rede de relações.
Quando a tela interfere na interação
Krapf-Bar et al. (2022), em estudo experimental com 114 bebês, observaram que o uso materno do celular durante a interação interferiu no estabelecimento da atenção conjunta, com menor responsividade das mães às iniciativas dos bebês e episódios de atenção conjunta mais curtos. Esses achados indicam que o impacto do celular na interação não está necessariamente relacionado à sua simples presença, mas ao modo como seu uso captura a atenção do cuidador e interfere na responsividade diante das iniciativas do bebê.
Nesse contexto, o termo tecnoferência (technoference) tem sido utilizado para descrever interrupções provocadas pelo uso de dispositivos tecnológicos nas interações interpessoais. No campo da primeira infância, o conceito permite refletir sobre situações em que a atenção do adulto é desviada para o dispositivo, reduzindo sua disponibilidade para perceber, interpretar e responder aos sinais da criança.
Essa discussão pode ser relacionada ao paradigma experimental Still-Face, desenvolvido por Tronick et al (1978). No experimento, após um período de interação face a face, o cuidador deixa de responder às iniciativas do bebê e mantém uma expressão neutra. Diante dessa ruptura na comunicação, o bebê modifica seu comportamento, reduz as iniciativas de interação, apresenta sinais de desconforto e busca restabelecer a conexão com o adulto.
Faria e Fuertes (2007), ao investigarem a reatividade infantil em situação experimental de Still-Face, destacam a importância da qualidade da interação entre mãe e bebê e da responsividade nas primeiras relações. Embora esse experimento não esteja diretamente ligado ao uso cotidiano do celular, ele possibilita uma reflexão relevante: uma breve ruptura pode parecer insignificante para o adulto, mas, para o bebê, pode representar uma interrupção na experiência de reciprocidade que sustenta seu desenvolvimento e sua regulação emocional.
Uma revisão de escopo publicada no Infant Mental Health Journal sugere que o uso do celular pelos pais na presença de crianças pequenas pode estar associado a alterações na sensibilidade e na responsividade parental, especialmente quando o cuidador se encontra absorvido pelo dispositivo. Desse modo, o aspecto central não é a simples ocorrência de uma breve interrupção, mas o quanto o uso do aparelho pode comprometer a disponibilidade do adulto para perceber, interpretar e responder aos sinais da criança.
Entre registrar e viver: a presença possível
A tecnologia pode funcionar como recurso facilitador na maternidade. No entanto, quando passa a ocupar o espaço da disponibilidade emocional da mãe, pode comprometer momentos importantes de troca, atenção compartilhada e reciprocidade. Talvez seja necessário perguntar não apenas o que fazemos com a tecnologia, mas também o que acontece com a nossa experiência quando sentimos a necessidade de registrá-la continuamente.
Não faz tanto tempo que fotógrafos eram contratados para registrar ocasiões especiais em família. Hoje, porém, os registros não se limitam a esses momentos. O cotidiano passou a ser fotografado, filmado e compartilhado. O bebê vai sendo observado, muitas vezes, pelo “olho de vidro” da câmera do smartphone, quando talvez procure, antes de tudo, um olhar que o encontre diretamente.
Quando a câmera passa a mediar o encontro, o olhar pode se deslocar do bebê para a imagem que será registrada. Assim, cabe perguntar: os sinais apresentados pelo bebê têm sido percebidos diretamente ou capturados pela câmera do celular? Talvez o bebê não espere ser visto pelo mundo das redes sociais a cada nova conquista; talvez espere, antes, ser visto por sua mãe, por um olhar que o encontre sem a mediação da tela.
Pequenas escolhas que protegem a presença
A construção do vínculo também se dá por gestos cotidianos. Reservar momentos de atenção compartilhada durante a amamentação, a troca de fraldas e o banho favorece o encontro entre mãe e bebê. Registrar memórias e fotografar momentos importantes pode fazer parte da vida familiar, desde que não substitua a experiência de vivê-los.
Essas considerações não pretendem estabelecer uma nova exigência para a maternidade. Não se trata de permanecer disponível o tempo todo, mas de reconhecer que alguns momentos de atenção compartilhada são especialmente importantes para a construção da relação. O desafio da maternidade contemporânea talvez não seja abandonar a tecnologia, mas impedir que ela ocupe o lugar da presença.
Conectados a quê? Desconectados de quê? A tecnologia pode aproximar mães de informações e redes de apoio, mas não substitui a experiência do encontro entre dois olhares. Antes de descobrir o mundo pelas telas, talvez o bebê espere um rosto que o reconheça; um olhar no qual possa, pouco a pouco, nascer como pessoa.
Considerações finais
As discussões apresentadas permitem compreender que a tecnologia digital ocupa um lugar ambivalente na maternidade contemporânea. Ela pode oferecer informação, apoio e conexão, mas, quando utilizada de forma excessiva ou pouco consciente, pode interferir na disponibilidade emocional e na atenção necessária à construção dos vínculos iniciais entre mãe e bebê.
Conclui-se que o desafio não é abandonar a tecnologia, mas utilizá-la sem substituir o encontro direto, o olhar e a observação sensível. A presença possível, ainda que não perfeita, favorece a responsividade materna e contribui para que o bebê seja reconhecido em sua singularidade.
Sobre os autores
Guadalupy Oliveira
- Psicóloga Clínica - CRP 02/18045
- Formação em Educação Infantil, Estudante de Psicanálise
Roselaine Vieira Sônego
- Psicóloga Clínica – CRP 08/38910
- Mestre em Educação e Desenvolvimento Humano - UEL
- Especialista em Psicologia Familiar Sistêmica - FLT, com formação em EMDR, Brainspotting, e Neuromodulação
Referências
- BOWLBY, John. Uma base segura: aplicações clínicas da teoria do apego. Porto Alegre: Artmed, 2024.
- BRAUNE-KRICKAU, Katrin et al. Smartphones in the nursery: parental smartphone use and parental sensitivity and responsiveness within parent-child interaction in early childhood (0–5 years): a scoping review. Infant Mental Health Journal, v. 42, n. 2, p. 161-175, 2021. DOI: 10.1002/imhj.21908.
- FARIA, Anabela; FUERTES, Marina. Reactividade infantil e a qualidade da interacção mãe-filho. Análise Psicológica, v. 25, n. 4, p. 613-623, 2007.
- GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra: o resgate do relacionamento entre mães e filhos. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: BestSeller, 2009.
- KRAPF-BAR, Dafna et al. Maternal mobile phone use during mother-child interactions interferes with the process of establishing joint attention. Developmental Psychology, v. 58, n. 9, p. 1639-1651, 2022. DOI: 10.1037/dev0001388.
- TRONICK, Edward Z. et al. The infant's response to entrapment between contradictory messages in face-to-face interaction. Journal of the American Academy of Child Psychiatry, v. 17, n. 1, p. 1-13, 1978. DOI: 10.1016/S0002-7138(09)62273-1.
- WINNICOTT, D. W. A criança e o seu mundo. 7. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2021.
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