Ir para o conteúdo
Homem idoso sentado ao ar livre utilizando um smartphone.

Artigo 09

Mais conexão, menos excesso

Tecnologia Saudável para Pessoas Idosas

Roselaine Vieira SônegoPsicóloga Clínica – CRP 08/38610

19 min de leitura

Todos os artigos

Resumo

A hiperconectividade digital é um tema da atualidade e geralmente com ênfase na infância e adolescência, e sua relação com a área da gerontologia carece de mais estudos. Isso porque esse tema constitui fenômeno contemporâneo marcado pela ampliação do uso de smartphones, redes sociais, aplicativos de comunicação e plataformas digitais na vida cotidiana, paralelamente à maior longevidade, constituindo-se assim, um fenômeno em efervescência multifacetada, que exige a criação de novos conceitos, novas palavras que o traduzam para o qual a semântica é requisitada. Embora a tecnologia possa favorecer inclusão social, contato familiar, autonomia e estimulação cognitiva, seu uso excessivo ou desregulado pode associar-se a ansiedade, insônia, nomofobia, isolamento presencial, exposição a golpes digitais e sobrecarga neurocognitiva. Este artigo tem como objetivo analisar a hiperconectividade em pessoas idosas à luz da neurociência, da saúde mental e da psicologia sistêmica familiar. Trata-se de uma revisão narrativa e analítica, fundamentada em artigos científicos, revisões integrativas e estudos recentes sobre conectividade cerebral, sono, envelhecimento, uso problemático de tecnologias e relações familiares. Os achados indicam que, no envelhecimento, a qualidade do uso digital é mais relevante do que o tempo absoluto de tela, pois atividades ativas e socialmente significativas podem reduzir solidão, enquanto o consumo passivo e compulsivo pode intensificar sofrimento psicológico e prejuízos no sono. Do ponto de vista neurocientífico, evidências recentes sugerem que o sono ruim em idosos se associa a hiperconectividade anormal entre redes cognitivas, especialmente a rede de modo padrão e redes frontoparietais, padrão relacionado a pior desempenho de memória e possível vulnerabilidade neurodegenerativa. Sob a perspectiva sistêmica familiar, compreende-se que a hiperconectividade não deve ser reduzida a um comportamento individual, mas analisada no contexto dos vínculos, papéis, fronteiras, perdas, comunicação e pactos familiares. Conclui-se que as intervenções devem integrar educação digital crítica, higiene do sono, segurança tecnológica, fortalecimento da autorregulação emocional, mediação familiar respeitosa e valorização dos encontros presenciais, evitando tanto a exclusão digital quanto a dependência tecnológica.

Palavras-chave:IdosoHiperconectividadeNeurociênciaSaúde mentalPsicologia sistêmica familiar

Introdução

A hiperconectividade digital é um tema da atualidade e geralmente com ênfase na infância e adolescência, e sua relação com a área da gerontologia carece de mais estudos. As pessoas estão vivendo mais, muitas gerações estão convivendo com o mesmo fenômeno digital, há uma efervescência multifacetada, que exige a criação de novos conceitos, novas palavras que traduzam o fenômeno de maior longevidade e do universo digital, impondo-se uma urgência semântica. A exemplo desse fenômeno multifacetado, são os termos usados para a maturidade conectada: a) NOLT (acrônimo para New Older Living Trend.): O conceito nasceu no ecossistema de inteligência de mercado e pesquisas de tendências globais, difundindo-se rapidamente nas redes sociais e em debates sobre envelhecimento, que traz uma visão de envelhecimento como um neologismo comercial para rotular o público que rejeita estereótipos tradicionais de passividade ou isolamento associados à velhice quem chegou aos sessenta anos, mas “não parece” ou “não age” conforme o modelo sociocultural que ainda sustenta uma velhice estereotipada. Por outro lado, o termo, segundo a Sociedade Brasileira de Gerontologia (2023) nega o processo de envelhecer, normatizando um ideal de envelhecimento; b) Silver Economy (Economia Prateada): “aquela parte da economia global relacionada à mudança demográfica causada pelo envelhecimento da população, que se concentra nas necessidades e demandas dos idosos” (McGuirk; Conway Lenihan; Lenihan, 2022 in: Álvarez-Diez, R. C. et al, 2023).

O envelhecimento populacional ocorre em uma sociedade cada vez mais mediada por dispositivos digitais. Pessoas idosas denominadas, adultos maiores (intermediário - 40 a 65 anos; e tardio - 65 anos em diante), frequentemente situadas à margem do universo tecnológico, passaram a utilizar smartphones, redes sociais, aplicativos bancários, videochamadas, teleatendimento em saúde e plataformas de entretenimento. Esse movimento amplia possibilidades de participação social e contato com familiares, mas também inaugura novos riscos psicossociais e neuropsicológicos quando o uso se torna excessivo, compulsivo ou pouco crítico.

A hiperconectividade pode ser compreendida como estado de disponibilidade permanente aos estímulos digitais, caracterizado por monitoramento constante de mensagens, notificações, redes sociais e conteúdos audiovisuais. Em adultos maiores tardios, esse fenômeno deve ser analisado com cautela: a tecnologia pode reduzir solidão e isolamento quando utilizada de modo ativo e relacional, mas pode intensificar ansiedade, insônia, sedentarismo, dependência comportamental, exposição a desinformação e vulnerabilidade financeira quando utilizada de forma passiva, repetitiva ou desregulada.

Este artigo tem por objetivo discutir a hiperconectividade digital em pessoas idosas a partir de três eixos integrados: a neurociência do envelhecimento, a saúde mental e a psicologia sistêmica familiar. A proposta justifica-se pela necessidade da não sedução de visões simplistas que tratam a tecnologia apenas como ameaça ou solução, reconhecendo que seus efeitos dependem do padrão de uso, da rede de apoio, da alfabetização digital, das condições emocionais e do funcionamento familiar.

Metodologia

Trata-se de uma revisão narrativa, de caráter qualitativo, exploratório e analítico. Foram considerados artigos científicos, revisões integrativas, revisões sistemáticas, meta-análises e estudos randomizados sobre hiperconectividade, saúde mental digital, envelhecimento, sono, conectividade cerebral, uso problemático de tecnologias e relações familiares. A análise priorizou evidências publicadas em periódicos científicos e materiais acadêmicos relacionados ao impacto das mídias sociais digitais na solidão de idosos, ao uso problemático da internet, às funções executivas e às redes cerebrais envolvidas no sono e na cognição, incluindo revisões de alta abrangência sobre intervenções digitais para solidão em idosos (Shah et al., 2021; Welch, et al., 2023; Ren et al., 2026; Liu; Han; Meng, 2026).

Hiperconectividade digital e envelhecimento

Miguel (2026) da Sociedade Brasileira de Gerontologia, eleva a análise sobre o processo de envelhecer ao discutir sobre o conceito em construção de NOLT (New Older Living Trend.) dentro da sociedade da maturidade conectada, ele destaca intencionalmente a necessidade reflexiva semântica de questionarmos o que está querendo revelar e esconder um rótulo novo: Ao tentarmos distanciar das palavras “velho”, “velha” ou “pessoa idosa”, reforçamos o idadismo: a ideia de que a velhice, por si só, é algo vergonhoso ou que precisa ser “maquiada”. Usar termos como esse significa: Silenciar as diferentes velhices: desconsidera as diversas formas de envelhecer que não passam por um padrão elitista, focado em uma “juventude eterna”. Reforçar a invisibilidade: transmite a ideia de que a pessoa só será aceita se “não parecer velha”. Nesse contexto, a velhice real continua sendo empurrada para debaixo do tapete. Promover o higienismo da vida: foca em discursos que reforçam o consumo e estética, em vez de políticas públicas comprometidas com a dignidade, o respeito e a valorização das pessoas idosas, independentemente de sua realidade sociocultural (Miguel, D.F. 2026).

A hiperconectividade em idosos apresenta natureza ambivalente. De um lado, o uso de tecnologias digitais pode favorecer autonomia, acesso à informação, contato com familiares, participação comunitária, teleatendimento e redução da solidão. Revisões sobre mídias sociais digitais indicam resultados positivos no enfrentamento da solidão e do isolamento social em pessoas idosas, especialmente quando a tecnologia é utilizada para comunicação interpessoal, videochamadas, trocas familiares e pertencimento comunitário (Kusumota et al., 2022). Contudo, revisões sistemáticas e meta-análises recentes demonstram que os efeitos das intervenções digitais não são uniformes: alguns estudos indicam redução modesta da solidão e melhora de saúde mental, enquanto outros apontam baixa certeza da evidência e necessidade de ensaios clínicos mais robustos (Jin et al., 2021; Shan et al., 2021; Patil; Braun, 2024; Ren et al., 2026).

De outro lado, o uso excessivo ou desorganizado pode configurar padrão de risco. Entre os sinais clínicos observáveis estão dificuldade de interromper o uso, irritabilidade quando desconectado, verificação compulsiva de mensagens, prejuízo do sono, redução de atividades presenciais, sedentarismo, ansiedade diante da ausência do aparelho e exposição aumentada a fraudes. Nesse sentido, a questão central não é demonizar a tecnologia, mas compreender quando ela deixa de funcionar como recurso adaptativo e passa a ocupar lugar regulador excessivo na vida emocional da pessoa idosa.

Esse cenário também se relaciona ao conceito de inclusão digital crítica. Evidências internacionais sugerem que o simples acesso à tecnologia não garante proteção psicossocial; os melhores resultados tendem a ocorrer quando o uso digital é acompanhado de capacitação, objetivos relacionais claros, suporte social e atividades cognitivamente engajadas. Revisões de intervenções contra solidão em idosos indicam maior efetividade quando programas combinam múltiplos componentes, como treinamento de habilidades, apoio social, reestruturação de cognições sociais disfuncionais e oportunidades reais de interação (Patil; Braun, 2024; Welch et al., 2023).

Fundamentos neurocientíficos

Na perspectiva neurocientífica, o uso digital contínuo envolve sistemas de recompensa, atenção, controle inibitório e regulação emocional. Plataformas baseadas em notificações, curtidas, vídeos curtos e rolagem infinita utilizam reforços intermitentes que podem ativar circuitos dopaminérgicos relacionados à busca por novidade e recompensa. Em indivíduos vulneráveis, esse padrão pode favorecer perda de controle, craving, dificuldade de desconexão e uso compensatório para aliviar solidão, ansiedade ou tristeza (Brand et al., 2019; Billieux et al., 2015). Esses achados são associados com a literatura sobre funções executivas, segundo a qual controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva são bases da autorregulação e da tomada de decisão adaptativa (Diamond, 2013).

No envelhecimento, tais processos devem ser analisados em articulação com mudanças próprias da idade, como alterações no sono, redução da flexibilidade cognitiva, maior vulnerabilidade à sobrecarga atencional e variações na velocidade de processamento. Estudos sobre qualidade do sono e conectividade funcional em adultos mais velhos apontam que o sono ruim pode estar associado a hiperconectividade anormal entre redes cognitivas, especialmente envolvendo a rede de modo padrão e redes frontoparietais, com relação a pior desempenho de memória e padrões semelhantes aos observados em fases pré-clínicas de declínio neurocognitivo (McDonough et al., 2026).

A rede de modo padrão está relacionada a pensamentos internos, memória autobiográfica, autorreferência e divagação mental; a rede frontoparietal participa do controle executivo, da atenção e da memória de trabalho. A hipercomunicação persistente entre essas redes pode indicar dificuldade de alternância eficiente entre repouso interno e foco externo, favorecendo ruminação, insônia e prejuízos cognitivos. Dessa forma, a hiperconectividade digital noturna, somada à exposição à luz, notificações e conteúdos emocionalmente ativadores, pode agravar dificuldades de sono e regulação cognitiva (Raichile, M. E et al., 2001; Vincent J. L. et al., 2008 e Hamilton J. P. et al., 2011)

Além disso, estudos de neuroimagem em repouso mostram que alterações da rede de modo padrão acompanham o envelhecimento e se associam a desempenho em velocidade psicomotora, memória de trabalho e funções executivas (Goelman et al., 2024). Pesquisas sobre insônia crônica também indicam que disfunções de conectividade na rede de modo padrão podem mediar a relação entre pior qualidade do sono e sintomas de ansiedade, reforçando a importância de considerar o sono como eixo central na avaliação clínica da hiperconectividade em idosos (Shen et al., 2024).

A neurociência também fornece conhecimentos importantes para melhor viver no mundo digital. Walsh (2016 a) quando discute sobre neurobiologia e processos familiares explicita

Psicologia sistêmica familiar e hiperconectividade

A psicologia sistêmica familiar compreende o indivíduo em relação com seus vínculos, padrões comunicacionais, regras explícitas e implícitas, fronteiras, alianças e ciclos de vida familiar. Sob essa perspectiva, a hiperconectividade do idoso não deve ser interpretada apenas como comportamento individual, mas como sintoma relacional possível, inserido em contextos de solidão, viuvez, aposentadoria, perda de papéis sociais, conflitos intergeracionais ou ausência de participação significativa na rotina familiar. Essa leitura se fundamenta em autores clássicos da terapia familiar sistêmica, como Bowen, ao destacar diferenciação do self, triangulações e transmissão multigeracional; Minuchin, ao enfatizar fronteiras, subsistemas e organização estrutural da família; e Carter e McGoldrick, ao compreenderem os sintomas no contexto do ciclo de vida familiar (Bowen, 1978; Minuchin, 1974; Carter; McGoldrick, 1995).

Em algumas famílias, o celular funciona como ponte de pertencimento: permite videochamadas, troca de fotos, participação em grupos e acesso a serviços. Em outras, torna-se substituto empobrecido do contato presencial, reforçando isolamento, conflitos e dependência emocional. A intervenção sistêmica deve investigar o lugar que a tecnologia ocupa na organização familiar: ela aproxima ou distancia? Favorece autonomia ou infantilização? Amplia repertórios sociais ou encobre sofrimento emocional? Qual a função do celular, ou da hiperconectividade na vida do idoso? O que ela diz sobre a rede, a qualidade das relações? O que ela diz sobre o imperativo mercadológico e do mundo do trabalho, um macrossistema com suas possibilidades do ócio e das rotinas estruturantes de vivências e sobrevivências? O que e como a hiperconectividade digital rege a vida de filhos adultos, netos e da própria pessoa idosa em termos de conexão emocional, de passagem do tempo, da territorialização de pertencimentos dentro e fora de subsistemas familiares?

Na perspectiva boweniana, a dependência do aparelho e mundo digital pode ser interpretada como tentativa de regulação da ansiedade relacional quando há baixa diferenciação do self, solidão ou fusão emocional com familiares. A análise focal sobre diferenciação do self encontrou associação desse constructo com saúde psicológica, qualidade conjugal, relações intergeracionais e bem-estar, embora ainda aponte necessidade de estudos longitudinais e causais mais consistentes (Calatrava et al., 2022). Assim, as intervenções práticas não devem restringir-se à retirada do dispositivo, mas à ampliação da autonomia emocional e da capacidade de contato significativo com o outro.

Uma abordagem familiar adequada evita culpabilizar o idoso e propõe pactos de uso saudável. Esses pactos podem incluir horários de desconexão, refeições sem aparelhos, apoio para segurança digital, incentivo a atividades presenciais, acompanhamento de sinais de sofrimento psíquico e construção de rotinas que combinem vínculo familiar, lazer, atividade física e uso ativo da tecnologia. Autores sistêmicos contemporâneos, como Walsh, também contribuem ao enfatizar a resiliência familiar, os processos de comunicação, crenças compartilhadas e reorganização diante de perdas e transições do ciclo vital, aspectos especialmente relevantes na velhice (Walsh, 2016 b).

A integração entre a neurobiologia das relações familiares e a abordagem sistêmica de Froma Walsh (2016 a) permite compreender a hiperconectividade digital em idosos não apenas como um hábito individual, mas como um fenômeno relacional, emocional e neurobiológico. A família, nessa perspectiva, funciona como um ecossistema vivo: mudanças no comportamento de um membro, como o uso excessivo de telas, aplicativos, redes sociais ou mensagens, repercutem no clima emocional de todo o sistema familiar.

A resiliência nasce da capacidade da família de criar segurança, significado compartilhado, flexibilidade e apoio mútuo diante das crises. A neurobiologia mostra como esses processos se tornam corporificados: vínculos de apego, presença afetiva, diálogo e cuidado ativam circuitos de segurança mediados por ocitocina, dopamina e regulação do sistema nervoso. Em idosos hiperconectados, esses mesmos circuitos podem ser tanto fortalecidos quanto desorganizados, dependendo de como a tecnologia é usada.

Discussão

A literatura indica que o impacto da tecnologia sobre idosos depende da finalidade, intensidade, autonomia e qualidade relacional do uso. O uso ativo, como videochamadas, leitura, cursos, jogos cognitivos e participação em grupos significativos, tende a fortalecer pertencimento e estimulação mental. Já o uso passivo e compulsivo, caracterizado por rolagem interminável, consumo de notícias alarmantes e busca constante por validação, pode aumentar ansiedade, insônia e sensação de vazio. Meta-análises recentes de ensaios randomizados indicam que intervenções digitais podem reduzir solidão e sintomas depressivos ou ansiosos em idosos, mas a magnitude dos efeitos varia conforme tipo de intervenção, suporte oferecido, contexto cultural e qualidade metodológica dos estudos (Jin et al., 2021; Ren et al., 2026; Liu; Han; Meng, 2026).

Assim, a hiperconectividade em idosos deve ser avaliada por critérios funcionais: há prejuízo no sono? Há redução de contatos presenciais? O idoso abandona atividades antes valorizadas? Há irritabilidade ao ser interrompido? Há dependência do aparelho para manejar ansiedade ou solidão? Há perdas financeiras ou exposição a golpes? Essas perguntas permitem diferenciar inclusão digital saudável de uso problemático.

Do ponto de vista clínico, a intervenção deve ser interdisciplinar. Profissionais de psicologia podem atuar na regulação emocional, no manejo da ansiedade e na reorganização das relações familiares; profissionais de saúde podem avaliar sono, cognição e sintomas depressivos; familiares podem oferecer suporte sem controle coercitivo; e políticas públicas podem ampliar alfabetização digital, prevenção de golpes e acesso seguro às tecnologias.

Pautados nos pressupostos de Walsh (2016a) entendemos que a hiperconectividade digital pode oferecer pertencimento, estímulo cognitivo e contato social, especialmente quando reduz o isolamento. Porém, quando se torna compulsiva ou substitui interações presenciais significativas, pode acionar circuitos de recompensa dopaminérgica de curto prazo, aumentar a vigilância emocional, intensificar ansiedade, favorecer contágio emocional por notícias alarmantes e enfraquecer a regulação compartilhada dentro da família.

No envelhecimento, há mudanças naturais na velocidade de processamento cognitivo, na atenção e na flexibilidade diante de estímulos complexos. Ao mesmo tempo, muitos idosos preservam ou ampliam uma tendência à positividade emocional quando inseridos em ambientes seguros. Assim, a família precisa equilibrar proteção e autonomia: não se trata de retirar a tecnologia, mas de transformá-la em ferramenta de vínculo, cuidado e participação, evitando que ela se torne fonte de ameaça, dependência ou sobrecarga neuroemocional.

E como se pode fazer isso? Diante dos conceitos sistêmicos e corroboração de Walsh (2016a) focados na temática da pessoa idosa e a hiperconectividade digital podemos criar as seguintes diretrizes:

Processos familiares de Walsh aplicados à hiperconectividade digital

• Sistemas de crenças: a família pode substituir julgamentos como “o idoso é teimoso” ou “não entende tecnologia” por uma leitura neuroeducativa: o uso excessivo pode estar ligado a busca de conexão, medo de isolamento, ansiedade, solidão ou necessidade de controle.

• Organização familiar: a hiperconectividade exige redistribuição de papéis. Filhos, netos e cuidadores podem atuar como mediadores digitais, sem infantilizar o idoso, respeitando sua autonomia e sua história.

• Comunicação e resolução de problemas: conversas calmas, presenciais e recorrentes ajudam o córtex pré-frontal a participar do processo decisório, reduzindo respostas defensivas da amígdala, como irritação, vergonha, negação ou isolamento.

Mecanismos neurobiológicos envolvidos:

• Recompensa e dopamina: notificações, curtidas e mensagens podem reforçar ciclos de checagem constante, produzindo prazer imediato e dificuldade de interrupção.

• Estresse crônico e cortisol: exposição contínua a notícias negativas, golpes digitais ou conflitos em grupos virtuais pode manter o organismo em alerta, elevando tensão, irritabilidade e fadiga.

• Contágio emocional: mensagens alarmistas, discussões familiares em aplicativos e excesso de informações podem ser absorvidos de forma automática pelo sistema límbico, aumentando ansiedade e reatividade.

• Regulação compartilhada: a presença calma da família, o tom de voz acolhedor e o diálogo presencial ajudam a reorganizar o sistema nervoso do idoso, favorecendo segurança e confiança.

• Neuroplasticidade: mesmo na velhice, novos hábitos digitais podem ser aprendidos quando são repetidos com apoio, previsibilidade e significado afetivo.

Diretrizes práticas para a família:

  1. Evitar críticas e rótulos: abordar o tema como um ciclo familiar e não como falha pessoal do idoso. A externalização do problema reduz vergonha e resistência.
  2. Criar rituais presenciais: reservar momentos sem telas para refeições, conversas, caminhadas, jogos, espiritualidade ou lembranças familiares, fortalecendo ocitocina, pertencimento e segurança.
  3. Combinar horários digitais: construir acordos simples sobre períodos de uso, pausa antes de dormir e momentos de desconexão compartilhada.
  4. Oferecer mediação digital respeitosa: ensinar configurações de privacidade, identificação de golpes e uso de aplicativos com paciência, sem infantilização.
  5. Observar sinais de sobrecarga: irritabilidade, insônia, medo constante, isolamento presencial, dependência de notificações ou dificuldade de interromper o uso indicam necessidade de reorganização familiar.
  6. Distribuir o cuidado: evitar que apenas uma pessoa assuma toda a supervisão tecnológica e emocional, prevenindo esgotamento dos cuidadores.

Diretrizes práticas para o idoso:

  1. Usar a tecnologia com propósito: priorizar chamadas com familiares, grupos de interesse saudável, atividades cognitivas, serviços úteis e contato social significativo.
  2. Fazer pausas corporais: levantar-se, respirar profundamente, alongar-se e perceber sinais do corpo, como tensão, agitação ou cansaço visual.
  3. Reduzir estímulos antes de dormir: evitar notícias, redes sociais e mensagens conflituosas no período noturno para proteger sono, memória e regulação emocional.
  4. Checar emoções antes de compartilhar: se uma mensagem gerar medo, raiva ou urgência, pausar e conversar com alguém de confiança antes de encaminhar.
  5. Manter vínculos fora das telas: preservar encontros presenciais, telefonemas afetivos, atividades comunitárias, hobbies e participação familiar.
  6. Pedir ajuda sem vergonha: dificuldades digitais fazem parte do processo de adaptação; aprender com apoio fortalece autonomia e plasticidade cerebral.

Essas diretrizes significam compreender que o problema não está apenas na tela, mas nos ciclos de vínculo, cuidado, medo, recompensa e regulação que se organizam ao redor dela. A tecnologia pode ampliar pertencimento e autonomia quando integrada a uma família emocionalmente presente. Porém, quando substitui a convivência, intensifica o estresse ou alimenta isolamento, exige reorganização do sistema familiar. A intervenção mais eficaz combina neuroeducação, acordos práticos, rituais de conexão e respeito à autonomia do idoso.

Considerações finais

A hiperconectividade digital em pessoas idosas configura-se como um fenômeno contemporâneo complexo, situado entre inclusão e risco, e atravessado por fatores neurocognitivos, emocionais, sociais e familiares. Seus efeitos não devem ser compreendidos apenas pelo tempo de tela, mas pela qualidade, finalidade, frequência e consequências funcionais do uso. Quando utilizada de forma ativa, intencional e relacional, a tecnologia pode favorecer autonomia, pertencimento, estimulação cognitiva, acesso à informação e manutenção de vínculos; quando passiva, compulsiva ou desregulada, pode intensificar ansiedade, insônia, isolamento presencial, sedentarismo, sobrecarga cognitiva e vulnerabilidade a golpes digitais.

Sob a perspectiva neurocientífica e da saúde mental, destaca-se que o envelhecimento envolve mudanças em atenção, memória, controle inibitório, sono, flexibilidade cognitiva e regulação emocional. Nesse contexto, notificações constantes, exposição noturna a telas, consumo de conteúdos alarmantes e busca reiterada por respostas imediatas podem ativar mecanismos de recompensa, vigilância e ruminação, favorecendo sofrimento psíquico e prejuízos no sono. Por isso, a inclusão digital da pessoa idosa deve ser acompanhada por educação crítica, segurança tecnológica, higiene do sono, autorregulação emocional e estímulo a atividades presenciais significativas.

A psicologia sistêmica familiar amplia essa análise ao compreender a hiperconectividade não como comportamento isolado, mas como expressão possível dos vínculos, perdas, papéis, fronteiras, comunicação e pactos familiares. O uso excessivo de dispositivos pode representar busca de pertencimento, manejo da solidão, ansiedade relacional ou reorganização de papéis no ciclo de vida. Assim, intervenções centradas apenas no controle do aparelho tendem a ser insuficientes, sendo mais efetivas aquelas que promovem mediação digital respeitosa, momentos sem telas, proteção contra fraudes, escuta afetiva, fortalecimento de vínculos presenciais e reconhecimento da autonomia da pessoa idosa.

Do ponto de vista acadêmico, o estudo reforça a necessidade de novas pesquisas sobre hiperconectividade digital na gerontologia, especialmente com delineamentos empíricos, longitudinais e interculturais, bem como instrumentos capazes de diferenciar inclusão digital saudável, uso intensivo adaptativo e uso problemático. Conclui-se que o desafio contemporâneo não é afastar a pessoa idosa da tecnologia, mas promover um uso consciente, seguro, significativo e integrado à vida relacional. Cuidar dessa relação implica articular neurociência, saúde mental, psicologia sistêmica familiar, políticas públicas e educação digital, preservando presença, encontro, pertencimento, autonomia e dignidade no envelhecer.

Sobre a autoria

Roselaine Vieira Sônego

  • Psicóloga Clínica – CRP 08/38610
  • Mestre em Educação e Desenvolvimento Humano - UEL
  • Especialista em Psicologia Familiar Sistêmica - FLT, com formação em EMDR, Brainspotting e Neuromodulação

Referências

  • ÁLVAREZ-DIEZ, R. C. et al. The evolution research on Silver Economy: current researches, trends, and implications for future directions. Transinformação, Campinas, v. 35, e237325, 2023.
  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 5. ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2013.
  • BILLIEUX, J. et al. Problematic use of the mobile phone: a literature review and a pathways model. Current Psychiatry Reviews, v. 8, n. 4, p. 299-307, 2012.
  • BOWEN, M. Family therapy in clinical practice. New York: Jason Aronson, 1978.
  • BRAND, M. et al. The interaction of person-affect-cognition-execution (I-PACE) model for addictive behaviors: update and extensions. Neuroscience e Biobehavioral Reviews, v. 104, p. 1-10, 2019.
  • CALATRAVA, M. et al. Differentiation of self: a scoping review of Bowen Family Systems Theory's core construct. Clinical Psychology Review, v. 91, 102101, 2022. DOI: 10.1016/j.cpr.2021.102101.
  • DIAMOND, A. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135-168, 2013.
  • GOELMAN, G. et al. Directed functional connectivity of the default-mode-network of young and older healthy subjects. Scientific Reports, v. 14, 4304, 2024. DOI: 10.1038/s41598-024-54802-6.
  • HAMILTON, J. P. et al. Default-mode network activation and connectivity in depression and its relation to rumination. Biological Psychiatry, v. 70, n. 2, p. 169-176, 2011.
  • JIN, W. et al. The effectiveness of technology-based interventions for reducing loneliness in older adults: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Frontiers in Psychology, v. 12, 711030, 2021. DOI: 10.3389/fpsyg.2021.711030.
  • KUSUMOTA, L. et al. Impacto de mídias sociais digitais na percepção de solidão e no isolamento social em idosos. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 30, e3573, 2022.
  • LIU, P.; HAN, J.; MENG, Q. Effects of digital technology interventions on mental health of older adults: a systematic review and meta-analysis. Psychogeriatrics, v. 26, n. 3, e70155, 2026. DOI: 10.1111/psyg.70155. McDONOUGH, I. M. et al. Sleep quality is associated with default mode and salience network connectivity differently across age and sex. Neurobiology of Aging, 2026. DOI: 10.1016/j.neurobiolaging.2026.05.002.
  • MIGUEL, D. F. A quem queremos enganar com “NOLT”? Presidente do Departamento de Gerontologia SBGG-SP. 12 fev. 2026. Disponível em: https://sbgg.org.br/a-quem-queremos-enganar-com-nolt/. Acesso em: 16 ago. 2026.
  • MINUCHIN, S. Families and family therapy. Cambridge: Harvard University Press, 1974.
  • PATIL, U.; BRAUN, K. L. Interventions for loneliness in older adults: a systematic review of reviews. Frontiers in Public Health, v. 12, 1427605, 2024. DOI: 10.3389/fpubh.2024.1427605.
  • RAICHLE, M. E. et al. A default mode of brain function. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 98, n. 2, p. 676-682, 2001.
  • REN, J. et al. Effectiveness of digital health interventions in reducing loneliness among older adults: a systematic review and meta-analysis. Age and Ageing, v. 55, n. 5, afag122, 2026. DOI: 10.1093/ageing/afag122.
  • SHAH, S. G. S. et al. Evaluation of the effectiveness of digital technology interventions to reduce loneliness in older adults: systematic review and meta-analysis. Journal of Medical Internet Research, v. 23, n. 6, e24712, 2021. DOI: 10.2196/24712.
  • SHEN, Z. et al. Deficits in brain default mode network connectivity mediate the relationship between poor sleep quality and anxiety severity. Sleep, v. 47, n. 3, zsad296, 2024. DOI: 10.1093/sleep/zsad296.
  • STOCKWELL, S. et al. Digital inclusion and older adults: a systematic review. Ageing e Society, v. 41, n. 3, p. 1-28, 2021.
  • VINCENT, J. L. et al. Evidence for a frontoparietal control system revealed by intrinsec functional connectivity. Journal of Neurophysiology, v. 100, n. 6, p. 3328-3342, 2008.
  • WALSH, F. Processos normativos da família: diversidade e complexidade. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016a.
  • WALSH, F. Strengthening family resilience. 3. ed. New York: Guilford Press, 2016b.
  • WELCH, V. et al. Digital interventions to reduce social isolation and loneliness in older adults: an evidence and gap map. Campbell Systematic Reviews, v. 19, n. 4, e1369, 2023. DOI:

Precisa conversar com alguém?

Encontre psicólogos e psiquiatras no diretório da PsySon e escolha quem melhor combina com o que você procura.

Ver profissionais

É profissional de saúde mental?

Cadastre-se na PsySon para ampliar seu alcance e acompanhar quem procura cuidado.

Criar meu cadastro